O Bengalão ouve sempre com atenção os mais velhos. Os Mais-Velhos, um pouco por já não terem nada a perder e muito por já não terem nada a ganhar, falam com uma franqueza de que os mais novos raramente são capazes. No outro dia, o Dr. Mário Soares, num debate sobre a situação e o futuro da União Europeia, disse uma coisa com que O Bengalão está perfeitamente de acordo: o principal problema da Europa é não ter políticos carismáticos, capazes de fazer os cidadãos partilharem de um sonho. Interrogado sobre se não havia nem um que se aproveitasse, disse: "Claro que há, um ou outro, há a Merkl, e o Zapatero, claro, e o próprio Sócrates faz o que pode..." Assim mesmo, sem tirar nem pôr. Só lhe faltou pôr no fim uma vírgula e acrescentar: coitadito. Assim: "... o próprio Sócrates faz o que pode, coitadito". E ainda dizem que O Bengalão fala mal do Ingenhêro, coitadito.
quinta-feira, 17 de abril de 2008
domingo, 13 de abril de 2008
O Senhor Silva vai à Madeira
O Bengalão não nutre grande simpatia pelo Senhor Professor Cavaco Silva. Nem sequer partilha do embasbacamento português por um filho de um gasolineiro ter chegado a um diploma de um politécnico inglês que, por via de um sistema de equivalência discutível, se designa por doutoramento. Mas O Bengalão sabe que o Presidente da República não se esgota na figura do Senhor Professor Cavaco Silva. Tem um carácter institucional que O Bengalão, democrata convicto, respeita.
Há anos, antes da eleição presidencial, o Jardim deu mais um ar da sua graça ao referir-se ao seu colega de partido como "Senhor Silva". O Bengalão acha que, para além da evidente falta de gosto do distinto lider da Madeira, nada de especial há nisto. Compreende-se o que o prócere da Ilha quer dizer: ao referir-se ao seu colega como "Senhor Silva", queria ele diminui-lo, reduzi-lo a um nome comum e negar-lhe o direito à identidade própria, tirando-lhe o nome mais definidor. Aliás, está agora a fazer o mesmo com o Ingenhêro, ao tratá-lo por Pinto de Sousa. O Jardim está a perder qualidades.
Mas a vida dá muitas voltas, como diria a Margarida Rebelo Pinto. O Senhor Presidente da República vai, em visita oficial, à Madeira. Durante a visita à região, não irá ao Parlamento Regional. Quer dizer, deslocando-se o Senhor Presidente da República à Região Autónoma da Madeira, não visitará a sede máxima do poder regional. O Jardim acha bem. E trata os deputados regionais de loucos. A Presidência da República diz que o convite que lhe foi dirigido pelo Presidente do Parlamento Regional era para jantar.
Isto quer dizer várias coisas: que, convidado oficialmente para jantar, o PR não achou que, aproveitando a sua presença na Região, valesse a pena visitar o Parlamento; que, sabendo que o Jardim ofendeu os deputados, tratando-os, em público, de loucos, o PR não achou seu dever defender a honra dos eleitos, indo ao Parlamento; que, tendo ouvido os dislates do Jardim, o PR não achou que a sua dignidade, que é a nossa dignidade, o impedisse de ir à Madeira jantar com ele.
O Jardim tem razão: quem vai à Madeira é o Senhor Silva.
terça-feira, 8 de abril de 2008
Jeito para línguas
Havia em Coimbra, no tempo em que O Bengalão por lá andou, um homem que foi um autêntico percursor dos guias turísticos. Era o Sébié. O Sébié, numa altura em que a maioria dos que nos visitavam eram franceses, e os outros passavam a sê-lo, que remédio, procurava os grupos de turistas, apontava para um monumento e, carregando nos EE, debitava: Univérsité, Sé Bié (O Bengalão não sabe como ele se referia à Sé Nova). O Bengalão espera que tu, Leitor, aprecies devidamente o tacto com que te informou de que Sé Bié queria dizer Sé Velha. Vem isto a propósito de um dos mitos mais arreigados na culpura portuguesa, o mito de que temos jeito para línguas. Nós, que só temos fronteira com a Espanha, a famosa raia que a parta, vemos os Espanhóis, que acham que o centro do mundo é Madrid e, por isso, não estão para falar outras línguas e convencemo-nos de que somos uns génios, uma espécie de finlandeses que falam todos outra língua porque ninguém compreende a deles. A verdade é que os portugueses têm um certo jeito para imitar sons e, portanto, conseguem dar uma impressão quase convincente, quando os ouvimos de longe e sem muita atenção, de que falam bem seja o que fôr. Mas, salvo as honrosas excepções do costume, está longe de ser verdade. O caso mais flagrante, nos dias de hoje, é o do Inglês. Qualquer bicho careta, munido do canudo da Licenciatura pela Universidade Independente, balbucia meia dúzia de inanidades monossilábicas e entarameladas, entremeadas com uma ou duas palavras mais compridas que aprendeu no Finantial Times (eles dizem FT, e nós quase os vemos a piscarem o olho numa familiaridade intolerável) e julga que está a falar Inglês. Quando é ministro e vai a Bruxelas às reuniões do Conselho, encontra-se com outros cromos, todos a dizerem yes, yes, e vem de lá convencido de que é um estadista de craveira internacional (é assim que eles falam, são todos de craveira).
Mas o caso mais grave está longe de ser o Inglês. Há em Portugal quem saiba Inglês. Ninguém estranha se um jovem, mesmo dos mais velhos, disser que vai para o British Council aprender Inglês. E, se muita gente que julga que sabe Inglês se limita a parecer ainda mais ignorante quando tenta mostrar as suas habilidades do que já é em vernáculo, a verdade é que há muita e boa gente que conhece a língua de Marlowe (por que é que há-de ser sempre a língua de Shakespeare?). O caso mais grave é mesmo o do Espanhol. É uma das línguas mais faladas do mundo, é a língua do país com que temos mais relações comerciais e, no entanto, muito poucas pessoas em Portugal a conhecem razoavelmente. Todos os Portugueses pensam que sabem Espanhol. Na Beira, há uma canção popular que parece ter sido feita para Mário Soares e outros extraordinários hispanohablantes da nossa praça, e que diz o seguinte:
Entrei pela Espanha adentro
Ai, a cavalo num burrito
E os Espanhóis me disseram
Ai que cavaleiro tão bonito
Vá de binga, binga, binga, binga,
Vá de binga, binga, binga, binga,
Já sei falar à espanhola, olé y usted
y olé
Vem este momento de poesia a propósito de uma coisa que O Bengalão ouviu hoje no Telejornal. Estavam a dizer que o Presidente do Governo espanhol, nas Cortes, tinha prometido maior severidade na luta contra a violência doméstica, e mostraram o Zapatero, com legendas e tudo, a dizer o seguinte: "Qualquer cobarde que ouse levantar a mão para uma mulher deve saber que tem diante de si, não uma vítima indefesa, mas 40 milhões de cidadãos prontos a..." E aqui é que a porca torceu o rabo. O que o Zapatero disse foi "...plantearles cara", ou seja, "a enfrentá-los". O que o tradutor escreveu foi "...partir-lhes a cara". Ou seja, porque não sabe Espanhol, o distinto escrevinhador não percebeu. Porque não é tradutor, não se deu conta de que o Presidente do Governo espanhol, numa sessão das Cortes, não ameaça ninguém de lhe ir às fuças. Porque não é honesto, inventou.
Não se pense que é caso único. As traduções literárias que, em Portugal, vão do muito bom (raro, mas existente) ao muito mau, sem passar pelo razoável, são particularmente más no caso do Espanhol. A grande maioria dos portugueses, no tempo em que estava mais na moda do que hoje a novela hispânica sul-americana, nunca leram Garcia Marquez ou Vargas Llosa. Leram sucedâneos canhestros, mal alinhavados e postos em língua de trapos pelos primos, amigos, amantes ou outra coisa qualquer de editores quase tão ignorantes como eles, que tinham ido duas vezes a Badajoz e, Ai que cavaleiro tão bonito, já sabiam falar à espanhola.
E é confrangedor, de cada vez que a RTP manda um enviado especial a Espanha, ou um repórter entrevistar um ciclista da Volta a Portugal, ver aqueles néscios a aproveitar cada cheirinho de S para falarem como se fossem belfos (ou seja, como se fosse um Z espanhol) e pensarem que estão a fazer uma grande figura.
Porque é que a RTP, que é nossa, não faz duas coisas muito simples: em primeiro lugar, contratar tradutores para fazerem traduções e, em segundo, dar formação profissional aos seus fncionários, inscrevendo alguns deles num curso de língua e cultura espanhola? O Instituto Cervantes é excelente e não é caro. E escusavam de andar a fazer triste figura em casa dos vizinhos.
Ainda o divórcio
Alguns amigos d'O Bengalão acharam que este tinha ido longe demais ao criticar o direito da Igreja Católica se meter na discussão do divórcio. O Bengalão acha que não se fez entender. A Igreja Católica tem todo o direito de dizer o que pensa da Família, do Casamento e do Divórcio (o Senhor Cardeal que me perdoe a terceira maiúscula). Mas a Igreja, que não reconhece o casamento civil, não tem o mínimo direito de se meter na sua dissolução. É ou não verdade que, para a Igreja, O Bengalão, civilmente casado há muitos e bons anos, vive (e só um católico é capaz de inventar uma palavra tão carregada de culpa) amancebado com a mulher que ama? Então que importa à Igreja que se separem, ou que o Estado reconheça a separação? Das duas uma, ou a Igreja reconhece o casamento civil, e não o faz, ou, para a Igreja, o divórcio de alguém civilmente casado pura e simplesmente não existe, porque se não pode dissolver o que não existe. Ninguém propõe que se dissolva civilmente o casamento religioso. Se alguém casar pela Igreja, esta tem todo o direito de considerar que só a morte os separa e, portanto, de não lhes conceder a separação. O problema da Igreja é a falta de fé. A Igreja ameaça os crentes com a cólera divina e com o castigo dos céus. Mas não acredita nem numa nem noutro. E prefere, enquanto espera pelo divino trovão, e à cautela, não vá o Senhor adormecer, ir adiantando já, e por conta, um infernozinho terreal e civil. A Igreja não consegue convencer os seus (in)fiéis das consequências terríveis da excomunhão e, por, isso, pede ajuda aos esbirros do príncipe. É disto que O Bengalão acusa a Igreja, não pretende cortar-lhe a palavra. Aliás, O Bengalão sempre considerou fascinante que alguns senhores que recusam cumprir o primeiro (por ordem cronológica) dos Mandamentos (Crescei e multiplicai-vos) lhe venham dar lições sobre a Família, a educação dos Filhos e a gestão da sua vida sexual. E não quer deixar de se divertir a ouvir as Reverendíssimas Criaturas.
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Independência para a Madeira, já!
O Bengalão leu no jornal uma declaração, que se pretendeu bombástica, do Senhor Rui Alves. Sabes, Leitor, quem é o Senhor Rui Alves? Pois é um pobre diabo, presidente de um clube desportivo, daqueles muitos para quem o Jardim canaliza o nosso dinheiro, para eles fazerem equipas profissionais de todos os desportos possíveis e imagináveis, todos eles absolutamente dependentes dos nossos impostos para conseguirem títulos ad majorem Jardinis gloriam. O Senhor Rui Alves declarou então que não gostava da Língua Portuguesa, nem da Cultura Portuguesa, que era a favor da independência da Madeira e que, lá mais para o Verão, ia viver para o estrangeiro. Nota, Leitor, que o Senhor Rui Alves não nos fez parte da língua que acha que devia ser oficial na futura República Popular da Madeira, mas O Bengalão acha que deve ser o Inglês. Esta gentinha acha sempre que sabe falar Inglês. Nota ainda, Leitor, a extraordinária coragem do Senhor Rui Alves. Ele acha que a Madeira, que é a terra dele, deve ser independente, e portanto, resolve ir para o estrangeiro. O Bengalão, na altura em que defendia a independência dos Montes Hermínios, ao menos, teve a coragem e o bom gosto discutível de fundar a Frente de Libertação da Egitânia, giroFLE, FLE, fla.
Perguntarás, Leitor, porque está O Bengalão a gastar cera com tão ruim defunto. O que temos nós com estes cromos que, de cinco em cinco anos, vêm falar da independência da Madeira? O que O Bengalão acha é que já não tem paciência para ouvir o Jardim e alguns caixeiros viajantes tornados ricos pelos chorudíssimos contratos celebrados com o PSD local, a que aliás pertencem, e pagos com o nosso rico dinheirinho falarem, de cada vez que alguém ousa dizer que talvez já fosse tempo de a Madeira, em vez de continuar a viver à nossa custa, começar, já que é a segunda região mais rica do país, a colaborar com o esforço de solidariedade com o Alentejo, o Nordeste ou o Vale do Ave, da independência da Ilha como se isso fosse uma ameaça que nos deixa transidos de medo. E começam logo a falar do colonialismo, e do sistema de colonia, como se uma coisa tivesse alguma coisa a ver com a outra. Sabes o que é a colonia, Leitor? Actualmente, é uma arma de arremesso que o Jardim utiliza, gabando-se de ter acabado com ela, com o descaramento dos mentirosos compulsivos. A colonia era um sistema medieval de exploração dos camponeses madeirenses pelas grandes famílias madeirenses (e não pelos cubanos), que foi extinto em 1977 pela Constituição da República e pela Lei de bases da Reforma Agrária, ou seja, pelo Parlamento Nacional, e não pelo Jardim.
O Bengalão está farto. E acredita que não é o único. E acha que chegou o momento da autodeterminação. De uma vez por todas. O Bengalão não quer impôr a cidadania portuguesa a ninguém. O Bengalão, que tem orgulho de ser português (O Bengalão sabe que o Ingenhêro, o Paulinho das Feiras, o Luís Filipe, o próprio Cochise, ou Geronimo, ou lá como se chama o índio, são efémeros, são fenómenos passageiros), acha que só deve ser português quem quer. E, assim, propõe um referendo de autodeterminação. Que se pergunte aos portugueses (do Continente, claro) se querem a independência da Madeira. E se, como espero, a independência ganhar, que os deixemos no meio das suas flores e da zona franca, responsáveis pelas suas contas. E, já agora, para evitar que o Rui Alves, que quer ir para o estrangeiro, se lembre de continuar a vir passear a sua insolência por Lisboa, que se exija o visto aos cidadãos do nóvel país que quiserem entrar na nossa terra, de cuja língua não gostam, cuja cultura não respeitam, mas que continua a pagar-lhe as contas.
segunda-feira, 31 de março de 2008
Divórcio litigioso
Resolveram alguns Deputados apresentar propostas no sentido de facilitar o divórcio aos portugueses. A situação actual é bem conhecida. Quando uma pessoa casada pretende pôr fim à relação matrimonial, tem hoje duas soluções: ou obtém o consentimento do cônjuge, e ver-se-á divorciada em breve prazo e a custo razoável; ou não o obtém, e terá, para se divorciar, de provar que a culpa da situação é do cônjuge e de pagar muito, em tempo e em dinheiro, para se divorciar.
Esta situação é duplamente injusta. Por um lado, prolonga desnecessariamente situações de conflito que são dolorosas, e, por outro, protegem os fortes. Quer dizer, num casal em que um dos cônjuges tenha rendimentos próprios e o outro não, ou se houver uma diferença muito sensível entre os dois, o mais rico pode, e muitas vezes fá-lo, prolongar quase indefinidamente os processos, tornando a vida do outro num inferno.
O Bengalão não conhece os projectos em discussão. Não sabe, assim, se alguns problemas são correctamente tratados. Mas sabe que, em princípio, o objectivo deles é justo e corresponde a uma prática social que tem feito com que o casamento já não seja a única maneira de constituir uma família e seja mesmo cada vez menos o acto constitutivo de uma família. Cada vez há mais pessoas que não consideram que o casamento seja uma condição prévia para duas pessoas iniciarem uma vida em comum. Cada vez menos pessoas consideram, assim, o casamento como acto fundador e sagrado.
O Bengalão tem a sua opinião. Mas trata-se de uma questão que é do domínio privado de cada um. A opinião d'O Bengalão não tem qualquer interesse, a não ser para si próprio e para a pessoa com quem partilha, e tem toda a intenção de continuar a partilhar a sua vida. Não tem interesse a opinião d'O Bengalão nem a de ninguém. Que o Estado deve proteger e salvaguardar o direito de alguns cidadãos, que acreditam que o casamento é sagrado, de celebrarem o matrimónio de acordo com essa crença é uma evidência. Que o Estado, ou seja quem fôr, tenha o direito de definir as condições da dignidade do casamento seria um desvio intolerável.
Ora a Igreja Católica entendeu pronunciar-se sobre o assunto. Tem a Igreja o direito de se pronunciar? Claro que sim. Desde que aceite as condições que governam a convivência num Estado de Direito. Ou seja, que a Igreja Católica aceite que deve, e pode, informar os seus fiéis das condições em que considera que eles podem casar ou separar-se. Se a Igreja Católica acha que os noivos, para casarem devem fazer o pino diante da Sé de Lisboa, pode e deve dizê-lo. Se a Igreja Católica acha que, para um casal se separar é necessário que um dos cônjuges seja Príncipe do Mónaco, pode e deve dizê-lo. O que a Igreja Católica não pode, nem deve, é tentar fazer com que o Estado consagre na Lei as crenças do Senhor Ratzinger. Para os Católicos, as crenças deste estimável Senhor são a Verdade com letra grande. Para O Bengalão, e para o Estado laico, as crenças do Senhor Ratzinger são do domínio estritamente privado.
Mas a Igreja Católica não aprende. Mesmo depois de séculos a tentar que toda a gente pense como ela, com resultados que, felizmente, estão longe de ser muito bons, ainda não aprendeu.
Ora meta-se a Igreja Católica na sua vida e deixe o governo da vida comum de todos os cidadãos a quem estes decidirem. Continue a Igreja a dizer aos seus membros as suas regras, mas deixe os outros cidadãos em paz. O Bengalão está farto de quem, em nome da iluminação divina pretende que a sua Ética é superior à ética d'O Bengalão, que os seus Princípios são superiores aos princípios d'O Bengalão, que a sua Moral é superior à moral d'O Bengalão.
E, por uma vez que o Ingenhêro assina um projecto de jeito, se é que o projecto é dele, deixe o homem trabalhar.
domingo, 30 de março de 2008
Quadro de Mobilidade
Os factos são claros: Vai ser criado um Quadro de mobilidade especial para Professores. Quer dizer, os Professores que, por motivos de saúde, não possam exercer funções docentes, sem estarem incapacitados para o trabalho, serão colocados num quadro especial e convidados a procurar encontrar outra possibilidade de trabalharem e justificarem, assim, o vencimento que continuam a receber. Como é natural, os Sindicatos de Professores protestaram.
Entendamo-nos, Leitor. Quando O Bengalão diz "como é natural", não quer de modo algum dizer que está de acordo com a opinião dos Sindicatos. O Bengalão acha perfeitamente normal que um Professor que, por razões de saúde, não possa ensinar, apesar de poder exercer outras funções, as exerça, desde que elas estejam de acordo com a sua formação e capacidades e que correspondam ao mesmo nível de responsabilidades que as de um Professor. De facto, não vê O Bengalão por que há-de continuar a pagar a um seu funcionário, apto para trabalhar mas inapto para exercer determinadas funções, desde que lhe ofereça a possibilidade de, sem se afastar muito do seu lugar de titularização, como defendem as convenções da OIT de que Portugal é signatário, usar e desenvolver as suas capacidades e conhecimentos, e manter o mesmo nível de responsabilidade.
O Bengalão acha que é natural que os Sindicatos protestem, porque os Sindicatos defendem interesses sectoriais, não defendem os interesses da generalidade dos cidadãos. O Bengalão, que, para além dos interesses dos Professores, vê também os interesses de quem lhes paga, tem uma opinião diferente.
Claro que, às vezes, numa negociação laboral, uma das partes oferece à outra algumas condições especiais, para a compensar de aspectos particularmente duros da sua profissão. É o que acontece, por exemplo, com os Deputados. As condições de trabalho dos Deputados são negociadas entre o legislador e o trabalhador. Isto é, entre o Deputado e o Deputado. Para compensar o Deputado das condições particularmente duras do trabalho do Deputado, o Deputado oferece ao Deputado, por exemplo, condições de reforma extremamente aliciantes.
Terá sido isto que aconteceu no caso dos Professores? Terá quem para isso tem poderes, considerando as condições, que lhe pareceram duras, do trabalho dos Professores, lhes terá oferecido, como compensação, a não aplicação da regra geral ao seu caso? Porque se assim foi, o caso muda de figura. O que seria apenas a aplicação, aos Professores, de uma norma geral, passaria a ser o rompimento intolerável de um contrato.
Ora é isto mesmo que dizem os Professores. E dizem mais do que isso. Dizem que a Lurdinhas, além de ter assumido este compromisso, foi mesmo à Assembleia da República dizer que não haveria quadro de mobilidade especial para os Professores. O Bengalão, que, como já disse, não faz suas as reivindicações sectoriais de uma classe profissional a que não pertence, tem, sobre este comportamento de quem eu seu nome age, o direito de ter uma opinião. E O Bengalão procurou, assim, saber se era verdade aquilo de que era acusada a Lurdinhas.
É verdade que mentir aos Sindicatos e mentir à Assembleia da República não é exactamente a mesma coisa. No primeiro caso, a empregada d'O Bengalão, em nome d'O Bengalão, teria enganado alguém com quem, em representação d'O Bengalão, negociava. No segundo, teria mentido ao seu próprio patrão, porque as perguntas que O Bengalão faz aos seus servidores (é o que quer dizer ministro), as faz através da Assembleia da República. O Bengalão envergonha-se se os seus empregados não forem pessoas de bem. E, se mentem àqueles com quem negoceiam, não são pessoas de bem. O Bengalão não admite que os seus criados lhe mintam. E espera dos seus procuradores, na AR, façam o que se lhes exige, se a mentira se confirmar.
A Lurdinhas, entretanto, explicou-se. Disse a ilustre almofalense a seguinte enormidade: que, quando disse que não haveria quadro de mobilidade para Professores, estava apenas a referir-se a quem exercia funções docentes. Quer dizer, para a Lurdinhas, Professor não é uma profissão, é uma função. Ou seja, que, durante o tempo em que não dava aulas, um Professor deixava de o ser. E, quando disse que não haveria QM para Professores, estava a dizer o seguinte: se, por hipótese académica, fosse criado um QM para Professores, os Professores (ou seja, os que estão a dar aulas) não iriam para lá, porque, estando a dar aulas, não se lhes aplicaria a mobilidade. Quem fosse para lá, não estaria a dar aulas, e portanto, não seria Professor. Com esta definição, a Lurdinhas mostrou que, para além daquilo que já todos tínhamos visto, está ao nível daquilo a que, na longínqua juventude d'O Bengalão, se chamava um pantomineiro: um vendedor de banha da cobra com uma língua mais virtuosa do que o produto que vendia.
quarta-feira, 26 de março de 2008
Jamé
O Bengalão ouviu o Ministro Jamé garantir que a decisão sobre o traçado da via de alta velocidade já tinha sido tomada. Ora O Bengalão não deu fé de que a CIP tenha publicado o seu relatório. O Bengalão anda cada vez mais distraído. E por isso te pede humildemente desculpa, Leitor.
segunda-feira, 24 de março de 2008
Casamento e Impostos
O Bengalão leu no Público. Não foi um sonho, nem foi um filme do Gato Fedorento no You Tube. O Bengalão leu no Público. Estava lá preto no branco. O fisco anda a enviar cartas ameaçadoras a contribuintes recém casados a fazer perguntas indiscretas. Quantos convidados, quanto custou o vestido de noiva, quanto custou o almoço, se calhar que prendas deu cada um e onde as comprou. E ainda se houve outros eventos no mesmo dia no mesmo local. O Bengalão aproveita para chamar a atenção das suas amigas feministas para o facto de o fisco estar muito interessado no preço do vestido da noiva, mas ignorar por completo o preço do smoking do noivo. O machismo revela-se nos actos mais banais. A eles, companheiras!
O Bengalão leu e ouviu muitos comentários indignados a esta carta do fisco. Que o segredo, que a intimidade, que qualquer dia vai a ASAE verificar se os noivos, no quarto, findo o banquete, fizeram o que tinham a fazer nas regras da arte.
Ora O Bengalão pensa que estes comentadores dão, todos eles, provas de enorme ingenuidade. O Bengalão explica. Perguntar a alguém que prenda uma pessoa lhe deu, onde foi comprada e quanto custou, ou perguntar aos noivos quanto custou e como foi pago um banquete que a boa tradição portuguesa manda que os pais paguem, e não os noivos, perguntar a uma noiva quanto custou o vestido que a tornou na mulher mais bonita do mundo, só pode resultar ou de uma ignorância e insensibilidade descomunais, mesmo para os altíssimos parâmetros do fisco, ou de um objectivo bem definido e oculto. Perguntar a uns noivos se houve, no mesmo dia e no mesmo local outros eventos, como se os noivos estivessem para pensar noutros eventos no dia em que se casam, só se compreende ou de alguém extremamente estúpido, ou de alguém com um objectivo oculto e bem definido.
O Bengalão, este cínico coriáceo, sabe que, de duas explicações aparentemente possíveis, a mais provável é a mais simples. Pensa, assim, que a explicação mais provável é que, por detrás desta carta do fisco esteja, portanto, um objectivo oculto e bem definido. Ninguém acredita que um responsável, mesmo licenciado pela Universidade Independente, resolva fazer estas perguntas e estas ameaças para obter informações. O objectivo das cartinhas deve ser, portanto, outro.
Mas qual pode ser o objectivo do fisco, ao enviar estas cartas, se não é o da obtenção de informações? Para responder a esta pergunta, O Bengalão aconselha a bem conhecida estratégia do Alho Porro, inventada pela conhecida Agatha Christie. Interroguemo-nos, assim: cui bonus? Ou seja, quem tem a ganhar com isto?
Parece evidente que esta carta levará à ridicularização do fisco, à sua desacreditação. Pois que outra consequência pode ter uma manobra aparentemente tão inábil, tão estulta, tão brutal?
Portanto, cui bonus? A quem aproveita esta ridicularização e esta desacreditação? A resposta só pode ser uma: a quem, de forma sistemática e premeditada, foge ao fisco. A organizações criminosas, pois.
Segue-se a conclusão. O Bengalão suspeita que o fisco, sabe-se lá a que nível, tenha sido infiltrado por alguma tenebrosa organização criminosa com um plano maquiavélico: destruir, quem sabe se para sempre, a credibilidade da Fazenda, para melhor poderem continuar as suas práticas.
À atenção do Senhor Ministro das Finanças.
A Inocência dos Talibans
Acalma-te, Leitor. Quando O Bengalão deixa entrever que considera os Talibans inocentes, não afirma com isso que ache que eles sejam inóxios, palavra que, como tu bem sabes, significa probos, sem culpa. Não. Nem O Bengalão se acha capaz de determinar a culpa de seja quem for, mesmo de Talibans. O que O Bengalão quer dizer é que eles são ingénuos, ignaros, que são outros sentidos da palavra inocentes. Todos os Talibans são ingénuos. Acreditam que conhecem a verdade. E que a verdade (eles dizem a Verdade) é fácil de adquirir. Basta ouvir o discurso certo, ler o livro indicado, andar na escola correcta. E, desde já to digo, Leitor, que os Talibans não são só muçulmanos. Não. Em todas as religiões há Talibans. Mais. Os Talibans estão longe de se manifestar apenas na vida religiosa. Em todos os sectores da actividade humana há Talibans. Nunca ouviste, Leitor, um economista dizer, contra toda a evidência, que o Mercado resolve todos os problemas?
A Educação em Portugal é dominada, desde há muitos anos, por Talibans. A coisa passou-se assim: Como em todos os sectores, sempre houve na Educação pessoas que não gostavam do que faziam, que não tinham paciência para os alunos, que eram professores porque era o emprego que tinham mais à mão, ou apenas porque sim. Muitas destas pessoas estavam longe de ser estúpidas e perceberam que, movendo os cordelinhos certos, poderiam passar umas temporadas deslocados nos serviços centrais do Ministério da Educação, o que lhes evitava a maçada de terem de dar aulas. Algumas destas pessoas eram ainda menos estúpidas do que as outras e perceberam que, se se tornassem indispensáveis enquanto lá estivessem, podiam lá ficar. Para sempre. Sem terem de aturar alunos. A darem ordens, em vez de as receberem.
E inventaram uma linguagem própria, que só eles dominavam e compreendiam. E enredaram todo o Ministério numa teia que impedia qualquer movimento que não fosse o seu. E, como todos os Talibans, resumiram a sua verdade em Dois Princípios Imutáveis:
Primeiro Princípio Imutável: NÃO HÁ RAPAZES MAUS
Segundo Princípio Imutável: Como dizia um escritor americano que O Bengalão, na sua juventude, lia com frequência, COM OS RECURSOS ADEQUADOS E COM O TEMPO NECESSÁRIO, É POSSÍVEL ENSINAR CÁLCULO DIFERENCIAL A UM CAVALO.
A Lurdinhas, a Taliban de Almofala, é um exemplo acabado deste fundamentalismo. A Senhora tem certezas. A Senhora sabe a Verdade. A Senhora sabe de quem é a culpa. E lançou uma fatwa sobre os Professores.
Nas cabeças destes iluminados, como não há rapazes maus e toda a gente é capaz de aprender tudo, a culpa da indisciplina na Escola e do insucesso dos alunos só pode ser dos Professores. Acham eles que os meninos podem ser ensinados sem terem de fazer esforço nenhum, que tudo numa sala de aula se pode resumir a uma eterna sessão de brincadeira. Defendem também que os processos mentais que fazem de um ser humano um ser humano esclarecido e capaz são de categorias hierarquicamente diferentes, em que o que eles chamam raciocínio é a zona nobre e o que eles chamam memória a zona brutal que devemos evitar a todo o custo desenvolver.
Nenhuma destas posições tem o mínimo fundamento teórico ou pragmático. São uma questão de fé.
A realidade, no entanto, não se compadece com crenças fantasistas. E, se a frase do Padre Américo exprimiu a generosidade e o amor de um homem bom, a mesma frase, na boca de uma Ministra da Educação, não revela nem generosidade nem amor. Revela apenas incompetência. Porque o mínimo que se exige a um ministro é que reconheça a realidade. E ele há rapazes maus.
Há mesmo rapazes maus que são perigosos. Não, Leitor. O Bengalão não se refere aos rapazes que levam as suas naifas para a Escola. Refere-se a outros, também eles individualmente perigosos e colectivamente catastróficos. Trata-se daqueles rapazes, e raparigas, filhos daqueles senhores que O Bengalão tem por vezes encontrado por aí, que se julgam endinheirados e que, depois de passarem uma semana numa praia para turistas no litoral brasileiro, com manhãs de praia, tardes de cerveja e noites de forró, dizem aos amigos: este ano vamos para Cabo Verde. O Brasil já conheço. Cada mulata, pá! Ih, Jasus!
Estes rapazes são perigosos porque são educados pelos paizinhos, que são umas bestas. A única maneira de os domar é dar poder às Escolas e autoridade aos Professores. E a Lurdinhas diminui um e outra. Ao impedir as Escolas de tomar medidas disciplinares, ao ter um discurso de humilhação permanente para os Professores, que são por ela tratados como se fossem um bando de ignorantes preguiçosos, a Lurdinhas é responsável por uma calamidade que, se não foi criada por ela, foi por ela agravada. E recordemos que a Lurdinhas quer que os Professores sejam avaliados por estas barrigas bronzeadas.
O Bengalão está longe de pensar que todos os Professores são competentes e dedicados. Não são. E uma parte da responsabilidade disso é de quem decidiu que podia haver praticamente uma Universidade em cada aldeia de Portugal. De quem permite que um cidadão possa passar para o 10º ano com negativa a matemática, fazer os três últimos anos do secundário sem essa disciplina, entrar em certas Escolas Superiores de Educação, ter um semestre de matemática nos quatro anos de estudo e, depois, dar aulas, entre outras coisas, de matemática. Ou seja, do Ministério da Educação.
É por isso que O Bengalão pensa que a Lurdinhas, a Taliban de Almofala, é inocente como todos os Talibans. O que está longe de a tornar menos culpada.
sábado, 15 de março de 2008
Greve da Função Pública
Parece que a Função Pública esteve em greve. O Bengalão diz parece, porque, ausente no estrangeiro, só soube do que se passou pela comunicação social. Ora que diz a comunicação social? Diz esta coisa espantosa: que o Governo afirma que a adesão à greve foi de 5,3% e que os Sindicatos informam que 70% dos trabalhadores participaram no movimento. E, sobre a taxa de participação, mais não disse a comunicação social. Estás tu, Leitor, a perguntar-te como é que o Bengalão, este cultor da precisão da linguagem, diz que esta situação é espantosa. Espantoso, que os Sindicatos asseverem que foram 70% os participantes? Espantoso, que o Governo jure que foram apenas 5%? Espantoso? Oh, Bengalão, que inocência!
Pois não faças juízos precipitados, Leitor, porque, nestas notícias, outra coisa há de mor espanto, como diria o Vate. (Não, Ingenhêro, não é a VAT, pergunta ao Carrilho, ele conhece). A primeira coisa que pode parecer espantosa é a diferença entre os números. Não é, no entanto, de estranhar. Tanto os Sindicatos como o Governo, ao indicarem um número, fazem-no apenas como o vendedor de tapetes faz ao turista que cruza as suas arenosas plagas. Quando lhe pede 20000 piastras pelo tapete, o custo de produção, os custos agregados, as margens de lucro, a internalização de factores externos, tudo isso é absolutamente irrelevante. A única coisa que conta é a seguinte: o mercador observa, com um olho semicerrado e escondido atrás da barba pujante, a cara do promitente comprador e, murmura, de si para consigo, na puridade do seu peito tratado a tâmaras e tempestades de areia: quanto é que este infiel é capaz de esportular para ficar com esta merda? E pede o dobro. Assim fazem os Sindicatos e o Governo. O Bengalão, com todo o cinismo de que é capaz o espírito científico, conhece bem o princípio da Rasoira de Occam. E sabe, portanto, que nenhum deles diz a verdade. E que esta se situa algures, entre uma cifra e outra.
Há outra coisa que o Bengalão sabe. Ao ouvir o porta-voz do Governo responder aos jornalistas sobre a adesão à greve, não conseguiu o Bengalão deixar de pensar nos magníficos beduínos das histórias de Tintin. Quando o turista lhes pergunta quanto custa o tapete, eles puxam de sob a jilaba encardida, de números sobre tudo, os filhos incontáveis, as mulheres que o Profeta permite, a velha mãe cega, viúva e faminta, o aumento do preço da alimentação dos camelos, os custos da globalização e a última visita da Al-asai. Tudo, menos o custo do tapete. Assim fez o porta-voz do Governo. À pergunta simples: qual foi a adesão à greve, ele respondeu com números sobre tudo, sobre a quantidade de hospitais encerrados, sobre o número de guichets da Segurança Social que estavam a funcionar, sobre quantos gabinetes ministeriais continuaram a produzir furiosas reformas, sobre tudo menos a adesão à greve.
A matemática tem destas coisas. O Bengalão explica devagarinho, como se o Leitor fosse Licenciado pela Universidade Independente. Em casa do Bengalão, o jantar é normalmente a dois. Um faz o arroz, o outro frita os carapaus, um vai lavando a loiça, o outro limpa-a, enquanto vão ambos pondo a mesa e discorrendo sobre coisas interessantes. Imagine-se que, um dia, o Bengalão faz greve à cozinha. Das razões que o Bengalão tem ou não tem para esta acção reivindicativa nada saberás, Leitor, que a boca do Bengalão é um túmulo. Mas faz greve. A cozinha funciona, nesse, dia, com metade dos seus trabalhadores. Lá se fritam os carapaus, o arrozito sai, talvez o sorriso não seja tão bonito como costuma, mas a cozinha funciona. Qual é a taxa de adesão à greve? O Bengalão responde e o Ingenhêro pode assinar por cima: 50%. Na cozinha do Bengalão trabalham dois, um fez greve, o outro não (e ainda bem, que o Bengalão é de muito alimento), metade aderiu, quem diz metade diz 50%. Qual seria a resposta do porta-voz? Seria simples. Que 100% das cozinhas tinha funcionado. Logo, que a adesão tinha sido de 0 (zero) por cento.
Conta-se na Beira que havia um homem que todas as noites, depois da ceia, punha o chapéu e saía, mesmo quando o tempo estava mais para o borralhento do que para o luarento. A mulher, por vezes, quase por desfastio, perguntava-lhe: E tu, para onde vais, homem, nesta noite de lobos e neve buraqueira? O Homem respondia, invariavelmente e com um sorriso nos lábios: Ora lá, vou ter com a minha amante!
Só vinte anos depois a mulher descobriu que era verdade, que isto de nas terras pequenas tudo se saber foi uma mentira que nós, os de lá, inventámos para enganar os Lisboetas.
Foi isto que fez o porta-voz. Com a verdade nos enganou.
O Bengalão é o primeiro a reconhecer que a conversa vai longa e ainda o Leitor não descortinou motivo de espanto. Pois não disse o Bengalão que havia uma coisa espantosa? E onde está o espanto? Em que o Governo minta? Será lá a primeira vez? Então não disse o Governo que... e depois foi-se ver e...? (Aqui o Bengalão deixa à rua consideração a escolha dos exemplos que são muitos e variados). Donde vem o espanto do Bengalão?
Já devias ter aprendido, Leitor, a estar mais atento ao que diz o Bengalão. O Bengalão repete o que disse, exacta e precisamente: Ora que diz a comunicação social? Diz esta coisa espantosa: que o Governo afirma que a adesão à greve foi de 5,3% e que os Sindicatos informam que 70% dos trabalhadores participaram no movimento. E, sobre a taxa de participação, mais não disse a comunicação social. O Bengalão já teve ocasião de te dizer, Leitor, que o homem avisado está mais atento ao que se não diz do que ao que é dito. Que o Governo tenha mentido não causa espanto ao Bengalão. E os Sindicatos, e os Sindicatos, pergunta o Padre Miguel Sousa Tavares ou outro Savonarola de serviço? O Bengalão reponde que não tem nada com isso. Os Sindicatos mentem ao Bengalão? Talvez, e depois? Os Sindicatos são associações privadas, constituidas para defenderem os interesses sectoriais dos seus membros, o Bengalão não é membro de nenhum Sindicato, nem sequer tem a honra (e o proveito duvidoso) de pertencer à Função Pública portuguesa e, portanto, se este Sindicato lhe mentir, o Bengalão limitar-se-á a não o convidar lá para casa nem para com ele tomar café na Benard. Temos assim, pois, que a afirmação dos Sindicatos deixam o Bengalão de mármore, como a Lurdinhas. Não lhe causa nenhum espanto.
O que causa o espanto do Bengalão (por falar nisso, O Bengalão ouviu no outro dia um debate sobre o momentosíssimo assunto do regime, monárquico ou republicano, que Portugal devia ter e decidiu que, a partir de hoje, vai passar a escrever o seu nome com mais respeito e nobreza. Assim mesmo, O Bengalão com maiúscula no artigo), o que causa então o espanto d'O Bengalão?
Pois, caro Leitor, é a última frase citada: E, sobre a taxa de participação, mais não disse a comunicação social. A comunicação social, sobre a taxa de participação na greve, limitou-se a repetir o que disseram Sindicatos e Governo.
Ora, só alguém muito mais ingénuo do que O Bengalão pensaria que a comunicação social o fez porque achou que um dos números era verdadeiro ou por não ter outras maneiras, mesmo penosas, de verificar a verdade. O Bengalão não acredita que, neste país em que floresce a abóbora e o Marcello pensa, neste país em que pululam Miguéis, e Vascos, e Sousas, e Pulidos, e Tavares e Valentes, neste país em que, por trás de cada jornalista de caneta embotada e monco caído, transparece, magnificamente, o olhar agudo e fino de um romancista genial, a comunicação social, ao acentuar, com o seu silêncio gritante, a diferença dos números, tenha querido outra coisa que não fosse dizer-nos tão-só e gloriosamente, a diferença dos números. Ou seja, a notícia que a comunicação social quis publicar foi, não o número de adesões, mas a diferença entre as afirmações do Governo e dos Sindicatos.
Tem a comunicação social o direito de dar esta informação? Claro que sim. Tem a comunicação social o dever de procurar também dar a outra? É a contrapartida da liberdade de imprensa. Uma comunicação social que não procura informar não merece existir. Qual é então razão da atitude da comunicação social? Pois, caro Leitor, é o vil metal. Os jornais vendem mais exemplares, as estações de televisão e rádio mais espaço publicitário se, em vez de noticiarem a verdade proba e lhana, noticiarem o abismo, a fossa, o Mindanau que separa as duas posições.
Só que O Bengalão, que paga o Governo, e que paga também a estes trabalhadores concretos, tem o direito de saber a verdade. Ou pelo, menos de que os seus empregados que ocupam as transitórias cadeiras do poder executivo, não lhe mintam. Que lhe digam, de olhos baixos e de chapéu na mão: Pois, Patrãozinho, não sabemos, as contas são difíceis, o choque tecnológico ainda não deu os seus frutos, os Serviços dos Ministérios, como não são alunos do décimo ano nem Professores, graças a Deus, ainda não têm computadores, pois o Patrãozinho há-de perceber e desculpar. Isto diria o Governo, se o Ingenhêro não tivesse faltado às aulas da catequese. E O Bengalão, magnânimo, perdoaria.
Ora O Bengalão tem uma solução para esta problemática. (Deve ser esta uma das poucas vezes em que a palavra problemática, como substantivo, foi usada por escrito no seu verdadeiro sentido). E uma solução moderna, que diz O Bengalão, pós-moderna. Com uma parceria público-privado, com externalização funcional e tudo. Não se admirava O Bengalão se, depois deste texto, recebesse um SMS do Ingenhêro a perguntar: Que pasta prefere Vossa Excelência? Na próxima remodelação é sua. (E a Excelência seria a d'O Bengalão).
Resumamos os problemas:
1-O Bengalão tem o direito de ser informado sobre a taxa da adesão à greve;
2-O Governo mente-lhe;
3-Os Sindicatos mentem-lhe;
4-A comunicação social não lhe diz a verdade.
5-A comunicação social ganha dinheiro com este exercício.
A solução é simples e elegante. Estabeleça-se uma Fundação, um Observatório da Adesão aos Movimentos Grevistas. Para a Presidência do Conselho de Administração, convide-se uma personalidade de reconhecida probidade e independência, por exemplo o Dr. Vitalino Canas. (No fundo, se há tantas fundações dirigidas por vitalinas, porque não uma dirigida por um Vitalino?). Esta Fundação encarregar-se-ia de fazer, à mínima greve, as investigações necessárias para determinar a taxa de adesão. Entretanto, os jornais, as televisões, os rádios, o próprio Marcello, tornariam públicos números, todos falsos, cada um mais fantasioso do que o outro, dizendo O Público, por exemplo, na primeira página: Sindicatos referem taxa de adesão recorde de 121%. Governo confirma que até os grevistas fizeram serão.
A Fundação calcularia, entretanto, a subida de audiências ou de tiragens produzidas por estas parangonas. E, desse valor acrescentado, 50% serviria para financiar a Fundação. Quem quisesse saber a verdade, O Bengalão, por exemplo, ia à página do Observatório na rede e obtinha o número. Sem espinhas.
A máquina de calcular, essa, seria paga com dinheiros do Quadro Comunitário de Apoio.
segunda-feira, 10 de março de 2008
Educação
Estamos todos de acordo. A Educação está muito mal. A maior parte dos portugueses não sabem falar, sabem ainda menos escrever, não são capazes de fazer uma conta simples sem uma calculadora e, mesmo com ela, se por acaso se enganam num algarismo, não dão conta, porque não fazem a mínima ideia do resultado aproximado. Além disso, não sabem História, não têm a menor ideia de Geografia, não conhecem um único pintor, ou escultor, ou músico. Também nunca leram um livro do princípio ao fim. Como se isto não bastasse, confundem alegremente conceitos básicos muito diferentes. Acham que simples é sinónimo de fácil, e complicado de difícil. Não distinguem impossível de improvável, provável de possível. A sua única ética é a Lei, no sentido mais boçal do termo. (Uma coisa é imoral se, e só se, a polícia os apanhar em flagrante delito). E isto aplica-se tanto ao carteirista do Rossio como ao presidente do conselho de administração. A Educação está muito mal, portanto.
O Bengalão diz desde já que a culpa não é do MINED. E não é, porque o sistema educativo está longe de ser o único veículo de transmissão de ideias, de técnicas de formação de opiniões próprias, de factos brutos e de comportamentos. Nem sequer é, provavelmente, o mais importante destes veículos. Um Ministétio da Educação que compreendesse isto, exigiria que lhe mudassem o nome. Que lhe chamassem Ministério da Instrução, por exemplo. A educação dos portugueses faz-se, fundamentalmente, pela televisão. É isto um exagero? Será. Mas num país em que se passa tanto tempo à frente da TV, é natural que esta seja, não só a principal fonte de informação, mas também o principal modelo de comportamento. Outra coisa não seria de esperar.
É ou não verdade que os adolescentes portugueses passam, por dia e em média, 4 horas na internet, sem o acompanhamento de um adulto, mesmo de um adulto sem conhecimentos específicos para orientar a sua formação? E o que é que o adolescente faz na internet, pergunta o Bengalão. E responde já. Educa-se. Ou seja, recebe ideias, toma conhecimento de factos, constroi as suas opiniões e modifica os seus comportamentos. Sem acompanhamento.
Quer isto dizer que devemos pôr um especialista atrás de cada jovem que vai à net? Concerteza que não. Mas chamar a um Ministério que ignora estes factos Ministério da Educação só pode ser uma piada de mau gosto.
O Ingenhêro declarou há uns meses que daria um computador a cada aluno do secundário. (Esqueceu-se de dizer que o fez provocando o gáudio dos pingues lucros de algumas empresas de telecomunicações e informática, mas isso são contas de outro rosário). É uma medida boa? É uma medida má? O Bengalão não sabe. Um computador é apenas um meio, não é um fim. E o Ingenhêro esqueceu-se de nos dizer qual era o objectivo. Ou seja, que competências espera o Ingenhêro que TODOS os alunos que saiem do Secundário tenham, no que diz respeito à informática.
Tudo no discurso do MINED é do mesmo jaez. Não disse a Lurdinhas, há meses, que, agora, o problema das instalações físicas das escolas está resolvido? Não é verdade que uma parte significativa das escolas portuguesas não têm instalações desportivas? Não interessa, Lurdinhas dixit Gosta o Ingenhêro de apontar a Finlândia como exemplo de sucesso educativo. Pois na Finlândia, uma das aulas obrigatórias do princípio ao fim do ensino obrigatório é uma coisa a que eles chamam, barbaramente, Urheilu. Se o Ingenhêro soubesse Finlandês, saberia que o Bengalão, este vaidosão que dá cinco tostões (e basta) para mostrar que sabe, está a falar de desporto. Já ocorreu à Lurdinhas que a generalização da prática sistemática de desportos colectivos em TODAS as escolas colaboraria para fomentar o espírito de corpo da escola, o espírito de equipa do aluno, o espírito de sã concorrência do cidadão?
Há estudos que mostram uma ligação entre a educação musical temporã e a qualidade dos resultados em matemática. Os japoneses e os coreanos, por exemplo, levam-nos muito a sério e estão à frente nos testes de numeracia. O que faz a Lurdinhas? Acaba com a pouca educação musical séria que existe no país. (O Bengalão não está a falar daquelas senhoras gordas e com pouco ouvido que ensinam as inínclitas gerações a cantar "Atirei o pau ao gato").
A Educação está mal em Portugal. Mas não fazer nada por isso, não reconhecer que há problemas de fundo que vêm de há muito tempo, que não fomos capazes, nós todos, de acompanhar a evolução da sociedade com mudanças das nossas (e não só da Escola) estratégias educativas tem um nome: incompetência. Dizer que tudo é simples e que a culpa é dos Professores tem outro nome: canalhice.
PS: O Bengalão agradece aos Professores que estiveram na manifestação de Sábado. E pareceu-lhe apropriado que, no dia 8 de Março, a maioria parecessem ser mulheres.
sábado, 8 de março de 2008
Fascismo
O Sr. Santos Silva foi a Chaves. O Sr. Santos Silva foi recebido com apupos e com gritos em que, entre outros mimos, lhe chamavam fascista. O Sr. Santos Silva declarou que aquilo era tudo organizado pelo Partido Comunista e que "aquela gente" (sic) não distinguia entre Salazar e um democrata. E disse que, se calhar, "aquela gente" não tinha lutado pela liberdade nem antes do 25 de Abril, nem no Verão Quente. (O Bengalão confessa que acha alguma piada a que um Ministro pergunte aos cidadãos em nome de quem governa, quando estes lhe dizem, talvez não com a meiguice que o mimoso governante esperaria, que acham que ele não serve, onde estavam no 25 de Abril)
O Bengalão gostava de dizer quatro coisas ao Sr. Santos Silva:
1- No 25 de Abril, o Sr. Santos Silva tinha 18 anos. Dificilmente terá sido um heroi da Resistência. Porque não pôde. Ai, se tivesse podido... Até a cadeira do Salazar teria tremido.
2- O Sr. Santos Silva diz que quem garantiu a liberdade nos anos 7o foi o PS. O Sr. Santos Silva aderiu ao PS em 1980. O Bengalão não fará ao Sr. Santos Silva o insulto de lhe dizer que aderiu ao exército quando a guerra já estava ganha e o exército distribuia chorudos cargos.
3- Espanta-se o Sr. Santos Silva por os manifestantes confundirem Salazar com os democratas. Ora nenhum manifestante chamou fascista aos democratas. Os manifestantes chamaram fascista ao Sr. Santos Silva.
4- Uma semelhança entre o Sr. Santos Silva e Salazar é que também ele, à mínima contestação, dizia que era tudo organizado pelos comunistas.
O Bengalão não sabe se há outras semelhanças. Mas, para aquilatar da honestidade intelectual do Sr. Santos Silva, e considerando que se tratava de uma manifestação de Professores e o Sr. Ministro citou tês democratas a quem todos devemos muito, Mário Soares, Salgado Zenha, Manuel Alegre, gostava de saber se o Sr. Santos Silva se deu ao trabalho de perguntar aos dois que ainda estão vivos o que pensam da política de Educação do Governo a que pertence.
Segurança Interna
O MAI publicou os últimos números que provam, à saciedade, que a criminalidade tem vindo a descer nos últimos anos. Há um ano, dois partidos da oposição, considerando que a criminalidade estava a aumentar, propuseram que se aumentasse o número de polícias. O Governo disse, na altura, que se tratava de uma manobra de populismo inaceitável, que não era necessário contratar mais polícias, que tudo estava bem, que para vivermos na Finlândia, só nos faltava a neve e chamarmos, como o faria o Ingenhêro se falasse Finlandês, às auroras boreais revontullen.
O Bengalão acredita piamente no MAI e nos seus relatórios. O Bengalão não põe as mãos no fogo nem pelo capachinho do Paulinho nem pela melena farta do MM (alguém se lembra dele?). O Bengalão acha, portanto, que é possível que o MAI tivesse toda a razão em não aceder às pretensões de tão sinistras personagens.
Entretanto, o crime desceu, o que parece dar razão ao MAI. Tudo está, portanto, bem. Poupam-se assim alguns euros e mostra-se à população que o MAI vela port nós e, ainda por cima, é poupada.
Mas, e em todas as histórias há um mas, se o crime desceu, alguns crimes aumentaram. Coisas de pouca monta. O assassínio de mais alguns seguranças. O car-jacking, como diria o Ingenhêro se soubesse falar português, os assaltos violentos. O que fez o MAI? Mais rápido do que a sua própria sombra, o MAI anunciou a contratação de mais polícias. Por acaso, o mesmo número que a oposição tinha proposto há um ano.
O Bengalão acredita em coincidências, com os limites do bem senso. Mas há alguns elementos de perturbação. Os números redondos perturbam o Bengalão. O número de polícias necessários são exactamente 2000. O Bengalão, este cínico, desconfia. Por que não 1998, ou 2002? Mas possível, é.
Agora, o que o Bengalão acha impossível de explicar pela coincidência é outro elemento. Expliquemo-nos por pontos:
1- O número de crimes desceu.
2- Por isso, há um ano, não eram precisos mais polícias.
3- O número de crimes continuou a descer.
4- Apesar disso, alguns tipos de crime aumentaram.
5- Todos estes crimes têm uma característica comum: são tipicamente urbanos.
6- Ou seja, da alçada da PSP.
Na sua proverbial modéstia, o Bengalão teria deslocado alguns membros da GNR para a PSP. Era mais barato e correspondia ao discurso do Governo sobre a evolução do crime em Portugal.
A não ser que a explicação seja outra. Que os números não sejam verdadeiros. Ou que a segurança subjectiva tenha levado o MAI a uma acção de propaganda hedionda. Ora qualquer agência de publicidade explicará a importância dos númeos redondos nas acções de propaganda. Ligando os dois elementos, o Bengalão ficou mais do que desconfiado.
E que ninguém diga que o Bengalão está a ver fantasmas onde os não há. Não seria a primeira vez que o Ingenhêro y sus muchachos usam a verdade com a flexibilidade de um contorcionista. E a propaganda parece ser a sua grande especialidade.
segunda-feira, 3 de março de 2008
Sucesso Escolar
Hurrah! Hurrah! Hurrah! O insucesso escolar desceu! O abandono escolar desceu! Yuppi! Tervetuloa Suomeen, como diria o Ingenhêro se falasse finlandês.
Agora, que o Bengalão já deu os vivas necessários, vejamos bem o que estamos a dizer. Há menos insucesso escolar este ano do que no ano passado. Muito bem. Há menos abandono escolar do que no ano passado. Melhor ainda. Mas, e aqui o Bengalão faz uma pergunta séria, o que é o abandono escolar? É o mesmo que era o ano passado? Ou, ditas as coisas de outro modo, quando se diz que há menos abandono escolar está-se mesmo a dizer que diminuiu a percentagem de alunos que frequentavam regularmente as aulas e deixaram de o fazer? Ou está-se simplesmente a dizer que, tendo a Lurdinhas decidido que as faltas deixam de contar, um aluno só abandona a escola no dia em que morrer ou fôr eleito deputado? Do mesmo modo, quando se diz que diminuiu o insucesso escolar, está-se a dizer que há uma percentagem menor de alunos que terminam o primeiro ciclo sem saberem ler e escrever e sem manejarem as quatro espécies? Porque, se não é isso (e os equivalentes para os outros ciclos) que se está a dizer, não estamos a falar de estatística, estamos a falar de propaganda. E o Bengalão tem pouca paciência para a banha da cobra.
sábado, 1 de março de 2008
Mea culpa
Muito tem o Bengalão zurzido a Lurdinhas. Mas ontem, ia o Bengalão a caminho de Damasco, quando surge, de uma nuvem quase sólida, a voz tonitroante de uma personagem de barbas que é por todos na Europa, como já tinha sido em África, considerado Modelo da Honestidade, Paradigma da Cultura, Prócere da Sensatez, Símbolo da Temperança, Arauto da Concórdia e vendedor de electrodomésticos. Compreenderás, Leitor, que, principalmente naquelas zonas, mesmo a coragem do Bengalão sofra algum abalo. Troou a Voz: "Bengalão! Oh Bengalão!". O Bengalão, aterrado, mal ciciou: "Quem me chama?". E a Voz: "Oh Bengalão, tu não te faças parvo! Não sabes então quem Eu sou?" Palavra de honra que se ouvia "Eu" com maiúscula e tudo. "Não sabes, Bengalão? Não te diz nada, Gondomar? A Manutenção Militar, nada te diz? Esqueces a Bola, os Apitos? Não te lembras dos aspiradores e da pesca na Guiné? Não sabes quem Eu sou, Bengalão?" E o Bengalão, cá de baixo: "Sei..." Torna a Voz: "Pois a Lurdinhas está a trabalhar muito bem, é uma mulher de coragem, eu próprio não faria melhor, ela e Eu somos a encarnação do mesmo, uma palavra contra ela é uma palavra contra Mim." A Voz arremessava maiúsculas como bombas. "Bengalão, que te não oiça Eu outra vez a vociferar contra ela, que é, repito, vociferar contra Mim."
O Bengalão declara, portanto, que a Lurdinhas é uma excelente Ministra. É Ele quem o diz.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Professores
O Bengalão tem notado que a sua memória já não é o que era. É certo que ainda se lembra do tempo em que a sua memória ainda era o que era, mas pouco mais. Mas a verdade é que a memória do Bengalão já não é o que era. Não se lembra assim o Bengalão, querido Leitor, se já te disse que não era Professor. Se ainda não to disse, diz-to agora. E diz-to para explicar muito bem que não tem qualquer interesse pecuniário na actual guerra entre os Professores e a Lurdinhas. Pode-te parecer, Leitor, que o próprio facto de o Bengalão se referir à Senhora Ministra por este apodo aparentemente pouco respeitoso mostra que o Bengalão está de pé atrás. Nada mais falso. Há até, como direi, uma espécie de carinho nesta designação. Qualquer pessoa que tenha vivido na Guarda, incluindo a Lurdinhas, percebe o que o Bengalão quer dizer. E digam lá, irmãos da velha Egitânia, tem ou não tem cara de Lurdinhas? Mas deixemos a linguagem codificada e vamos a factos. A Lurdinhas parece convencida de que é possível melhorar a Educação em Portugal contra os Professores. Diz ela que os Professores não querem ser avaliados. Mas então o Bengalão tem muita sorte. Todos os Professores que o Bengalão conhece não só querem ser avaliados, como acham que um dos problemas mais graves do Sistema Educativo é a falta de avaliação de TODOS os intervenientes no processo. Um exemplo, tirado dos jornais: em dois anos seguidos, as provas de exame de química continham erros científicos primários. E os autores desses exames só fazem isso. O que lhes aconteceu? Lembram-se do tempo em que o Dr. Manuel da Silva, saudoso Professor do Bengalão que lhe mostrou os caminhos da matemática, além de ensinar o Bengalão, ainda fazia provas de exame e dirigia estágios de Professores? Agora não. Só fazem aquilo. O que lhes aconteceu, pergunta o Bengalão? Foram avaliados? Considerou a Lurdinhas que trabalhavam demais?
O Bengalão não toma posição sobre a bondade do sistema de avaliação. O Bengalão sabe fazer contas e acha que, para fazerem tudo o que é preciso fazerem, os Professores deixarão de ter tempo para ensinarem. Mas é apenas a opinião do Bengalão. Não é mais do que isso. Mas o Bengalão sabe outras coisas, usando apenas o seu bom senso. O Bengalão sabe que uma das qualidades que distinguem os grandes Professores é a capacidade de comunicação. Sabe também que a Lurdinhas terá muitas qualidades, mas não tem essa. Ainda não conseguiu mostrar a ninguém que pôr Professores a preencher mais impressos do que dantes se preenchiam para comprar casa é uma maneira eficiente de gerir a Educação. E sabe outra coisa. Sabe que, seja qual fôr o sistema de avaliação que fôr aprovado, não se fará sem os Professores. E que quem tem o mínimo de experiência de gestão de recursos humanos sabe bem que, se não houver um grande consenso sobre métodos, instrumentos, estratégias e objectivos da avaliação, ou se cai na arbitrariedade total (costuma acontecer nos primeiros anos de aplicação), ou se avaliam todos os intervenientes por cima, destruindo assim a própria avaliação. Duvidas disto, Leitor? Pois deixo-te um trabalho de casa. Procura saber a média das notas dadas pelos médicos formadores aos médicos internos. Como hás-de tu saber isso? Esforça-te, ask your member, como diria o Ingenhêro se soubesse Inglês e não fosse tão cinzento. Mas o Bengalão garante que a resposta é interessante e instrutiva.
sábado, 23 de fevereiro de 2008
Hilotas, periecos e penestas
O Bengalão anda preocupado. Aparentemente, tem razões para isso, porque há outros que também o andam. O relatório da SEDES é um exemplo disso. A SEDES anda muito preocupada porque os Portugueses, diz a SEDES, parecem viver num clima de tensão social difusa, que pode levar ao desequilíbrio social e mesmo a focos de revolta que não auguram nada de bom. O Vitalino veio logo dizer que a SEDES estava a exagerar, que a situação não era tão má como a SEDES a pintava, que eram, afinal dores de parto de um conjunto de reformas que fará de Portugal uma mistura de Irlanda e Finlândia, com todos os portugueses a embebedarem-se ao sábado com Guiness e marjavotka, ao som de harpas e tambores de design moderno e cristalino.
O PR veio logo dizer que também ele estava preocupado, que também ele já tinha referido alguns dos temas abordados pelas SEDES.
Há assim razões para o Bengalão estar preocupado. O Bengalão acordou no entanto com a estranha sensação de que não estava preocupado com as mesmas coisas. Que a SEDES, o PR, o Vitalino, o Luís Filipe, o Ingenhêro, o Paulinho, o Tio Belmiro, o Pensador Marcelo estão preocupados com a revolta surda como o início de um terramoto que todos ouvimos. O Bengalão preocupa-se com as razões dessa revolta.
E parece ao Bengalão que algumas coisas são visíveis. Um exemplo: O PR, o mais alto magistrado da Nação, parece muito preocupado com o futuro do Estado-Previdência. Várias vezes falou nisso. E disse, com razão, que as futuras pensões podem estar em risco. Que numa sociedade em que se vive até aos oitenta anos, não se pode trabalhar até aos cinquenta. Que, por isso, é necessário aumentar o tempo de quotização. Em tudo isto o PR tem razão. Mas, para si próprio, ele não vê qualquer problema em acumular, para além do seu vencimento de PR, TRÊS pensões, pagas directa ou indirectamente pelo Estado, para nenhuma das quais trabalhou mais do que 10, no máximo 15 anos.
O Sr. Bagão Félix tornou-se famoso por, imediatamente antes de mudar as leis da aposentação da Função Pública, fazendo perder aos funcionários alguns direitos (e possivelmente com muita razão), se ter reformado a tempo de lhe não aplicar a Lei que ele achava indispensável.
Os Senhores Deputados, que acham que nós devemos trabalhar mais para ganharmos menos, acham que eles devem trabalhar menos para ganharem mais. O Governador do Banco de Portugal, que defende a moderação salarial, não tem vergonha de se abotoar com o nosso dinheiro num salário e outra contrapartidas que são escandalosas. O Sr. Ministro das Finanças defende a triplicação do salário do gestor de uma Empresa Pública, dizendo que, se queremos bons gestores, temos de lhes pagar bem (na realidade, o Sr. Ministro teve um lapso interessante, ao dizer operários e trabalhadores em vez de gestores, mas depressa rectificou), o que mostra que, na opinião do Senhor Ministro não são precisos bons operários e trabalhadores, e por isso defende para eles salários baixíssimos, sob pena das maiores catástrofes, mas apenas bons gestores que, apesar de serem dos mais bem pagos da Europa, não conseguem desenvolver o país.
Os dirigentes das grandes empresas acham que qualquer reivindicação salarial leva o país para o abismo, mas, nas suas versões mais sofisticadas, perdoam aos filhos, roubando os accionistas, empréstimos de milhões de euros, e, nas versões mais grosseiras, gastam em Ferraris o que devia ser reinvestido.
Todas estas pessoas têm uma coisa em comum. Eles acham mesmo que são diferentes dos outros, que as regras que se aplicam às pessoas comuns não se lhes aplicam. É difícil falar com uma destas pessoas sem ela defender os valores do patriotismo, da Nação, da Portugalidade, como alguns ainda dizem. Mas basta alguém reclamar que o salário mínimo suba para um nível mais digno para que eles ameacem abandonar o país com o seu dinheiro para investirem noutro país qualquer, esquecendo-se de que nenhum deles conseguiu alguma vez o mínimo êxito, a não ser noutas repúblicas das bananas, onde se pode fugir aos impostos, sonegar informação às autoridades, corromper quem decide e, sobretudo, onde a justiça não funcione. On seja, noutros Portugais.
Esta gente pensa mesmo que é diferente. E que nós, se não somos escravos, não somos também cidadãos, somos uma espécie de hilotas, como em Esparta. Podemos até dizer que Portugal se compõe hoje de uns milhares de VIP's, que têm direito a tudo, e muitos milhões de hilotas, periecos (que são os hilotas de Loures, da Amadora, de Matosinhos e da Maia) e penestas (hilotas das Outras Bandas, dos Algarves de além Douro e além Tejo).
O Bengalão não tem solução para isto. O Bengalão não conhece melhor sistema do que a democracia representativa. Mas parece-lhe que a constituição de grupos de cidadãos à volta de alguns temas e a utilização de algumas formas de acção colectiva poderiam assustar S. Bento e outros milagreiros. Já deu resultado noutros sítios. Por exemplo: dada a maneira escandalosa como o BCP tem vindo a ser dirigido, com prejuízo claro de pequenos aforradores e depositantes, quer tal boicotar o BCP?
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Empregos
Na sua entrevista à SIC, o Ingenhêro declarou que já tinha criado mais de metade dos empregos que prometera criar nesta legislatura. Entendamo-nos. O Ingenhêro não se refere a um saldo positivo de empregos, quer dizer, à diferença entre o número de empregos perdidos e o número de empregos criados. Refere-se só a estes. Quer dizer, considera-se responsável pelos novos empregos, mas acha também que os empregos perdidos foram vítimas da conjuntura internacional.
A este propósito, oferece-se ao Bengalão contar uma fábula. Conheces, caro Leitor, aquela máxima chinesa (palavra de honra que o Bengalão esteve para escrever "aquele anexim chim", mas não teve coragem) que diz que quando alguém aponta para a Lua, o sábio olha para a Lua, mas o néscio olha para o dedo? Pois também aqui é de dedos e de Lua que se trata.
Havia, nas negregadas alturas da Serra da Estrela, um homem como os outros, não muito inteligente, mas ambicioso, não muito bonito, mas fotogénico, não especialmente dotado de ideias, mas capaz de as embrulhar em palavras que outros homens gostavam de ouvir. Por razões que demoraria muito tempo a explicar, vieram-no buscar um dia para o levarem para o Palácio da Capital onde se reuniam outros homens como ele, sem muitas ideias, mas ambiciosos que, acometidos de uma estranhíssima doença, estavam convencidos de que eram eles que governavam o país. Faziam muitas reuniões findas as quais aprovavam uns documentos que lhes tinham posto nas pastas, todos impantes e muito convencidos de que tinham sido eles que os escreveram. Apontavam para os papeis e diziam uns para os outros: "Vê esta Lei? Fui eu que fiz!" A esta doença chama-se doença do dedinho, porque, nas suas formas mais graves, os coitados que dela sofrem chegam junto de homens, uns deles sábios, outros néscios, apontam para a Lua e, sem sequer darem tempo aos sábios de olharem para a Lua e aos néscios de olharem para o dedo, dizem, para espanto dos povos: "Vêem a Lua, além? Fui eu que a fiz."
Por aqui fica a fábula, que para bom entendedor nem meia palavra é precisa. O Ingenhêro está doente, coitado. Aponta para um projecto e sai-lhe logo: "Fui eu que o fiz!" Anda um desgraçado em A-dos-Cunhados um ano para obter apoio bancário para a sua nova empresa de janelas de alumínio, lá consegue aos trancos e barrancos, cria 5 postos de trabalho e logo, detrás de um pinheiro daqueles que há sempre junto das fábricas de janelas de alumínio, surge, de dedo em riste, o Ingenhêro, dizendo: "Vêem aquele posto de trabalho? Fui eu que o criei!"
O Bengalão não comenta o resto da entrevista. Não está com paciência para comentar propaganda.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
Elogio de Sócrates
O Bengalão, além de ser Homem de Palavra, é um homem de palavras. E segue, sempre muito atento, as palavras do Ingenhêro, não para tentar perceber o que ele diz, que é, as mais das vezes, irrelevante, mas sempre à escuta do que ele não diz. O Leitor já terá reparado que a modéstia é uma das qualidades que doura o Bengalão. É por isso que o Bengalão não ousa repetir o que um dos seus comentadores disse há alguns posts, quando afirmou que o Bengalão era fino como um alho. É verdade que só a modéstia impede o Bengalão de o repetir. E o Leitor está mesmo a ver daí o Bengalão, naquela posição de mãos postas sobre o peito e olhos semicerrados, como o Papa, quando diz, na sua modéstia beata, "Eu não valho nada. Eu sou apenas o representante de Deus na terra". Não repetirá assim o Bengalão que é fino como um alho. Está então o Bengalão à escuta do que o Ingenhêro não diz. É um exercício muito instrutivo, que o Bengalão aconselha vivamente ao Leitor. Queres um exemplo, Leitor?
Pois bem. Há alguns dias, publicou um jornal uma notícia segundo a qual o Ingenhêro teria, há alguns anos, quando era funcionário da Câmara da Covilhã, assinado alguns projectos a apresentar na Câmara da Guarda, dos quais não seria o autor. O autor seria um funcionário da Câmara da Guarda, impedido como tal de lá apresentar projectos, suprindo essa proibição com o recurso à assinatura do Ingenhêro. A notícia é omissa sobre se o mesmo se passava no sentido inverso, quer dizer, se o Engenheiro da Guarda assinaria projectos da autoria do Ingenhêro da Covilhã, para este os apresentar nesta Câmara.
O Bengalão não faz a mínima ideia se isto é verdade. O Bengalão sabe que este tipo de práticas era corrente, principalmente em Concelhos do Interior, onde não abundavam os técnicos liberais e os projectos se faziam com muita fé em Deus e a ajuda de um desenhador. Mas não sabe se o Ingenhêro fez aquilo de que é acusado. Não toma por isso posição. Quantas mentiras não viu já o Bengalão escritas em jornais? Esta pode ser apenas mais uma, porque não?
O que é interessante para o Bengalão são as respostas que o Ingenhêro dá quando alguém o interroga sobre o assunto. Um jornalista, ou um deputado, pergunta-lhe: É verdade, Ingenhêro? Assinou projectos dos quais não era autor, o que é, objectivamente, um crime de falsificação e uma irresponsabilidade total, que provariam à saciedade que não tem as qualidades éticas para exercer o alto cargo que ocupa? (É claro que a pergunta é mais curta, para não dar a possibilidade ao Ingenhêro de se refugiar no matagal das ofensas imerecidas, mas o que quer dizer é isto.) A resposta do Ingenhero é um modelo de precisão de linguagem. Com esta formulação ou com outra, o que o Ingenhêro diz sempre é o seguinte: "Nunca assinei nenhum projecto pelo qual não fosse responsável".
Ora a verdade é que um técnico nunca é responsável por um projecto que não assinou e é sempre responsável por projecto por si assinado. Neste quadro, assinar é um sinónimo de ser responsável. O que o Ingenhêro diz, portanto quando lhe perguntam se assinou projectos que não elaborou, é o seguinte: Nunca assinei projectos que não tenha assinado. É por isso que o Bengalão se interessa muito mais por aquilo que o Ingenhêro não diz. E ele não diz que a acusação é falsa. Mas é verdade que utiliza as palavras com uma precisão que o Bengalão não pode deixar de admirar.
Financial Times
O Bengalão, caro Leitor, por vezes, em momentos em que se abandona e deixa que a sua atenção seja brevemente afastada da realidade nua e crua, também lê o Financial Times. Que queres, Leitor? Até os Poetas têm direito ao sonho. O Bengalão lê, assim, o Financial Times. Aqui há tempos, publicou o FT um artigo de um economista que o Bengalão lê sempre com a máxima atenção, John Kay, especialista em sistemas de pensões, que tem a enorme vantagem de apresentar, para além das suas opiniões e dos seus preconceitos ideológicos, dados numéricos brutos, a partir dos quais é possível seguir o seu raciocínio. Basta um sumário do artigo para as orelhas do Bengalão se porem de sobreaviso. Diz Kay o seguinte: Toda a gente anda a dizer, a gritar, a mostrar, que a Segurança Social está em risco de não poder honrar os seus compromissos a médio prazo. Tantas vezes é repetida esta mensagem que, hoje, já ninguém duvida dela. Ora bem. A Comissão do Orçamento do Congresso dos EUA fez contas. As conclusões são claras. Mantendo-se as actuais tendências, daqui a 50 anos, as receitas da Segurança Social serão de 14,02% do rendimento nacional e os compromissos de 14,29%. A diferença é de 0.27%. Daqui a 50 anos. O que nos mostra uma coisa. Pelo menos nos EUA, a propalada crise é uma mentira. Quem a repete? Economistas, que julgam que são cientistas e que põem a sua capacidade de jogar com números ao serviço daqueles a quem esta mentira serve. Os fundos privados de pensões. Portanto, caro Leitor, de cada vez que ouvires dizer o mesmo (e o Bengalão reconhece que, na Europa, a situação demográfica é diferente da americana e que, portanto, os resultados seriam diferentes, mas nunca tão alarmantes como nos dizem), não perguntes pelo curriculum académico de quem faz a afirmação. Pergunta antes para quem trabalha. E, se ele trabalha para a banca ou os seguros, desconfia, Leitor, desconfia. É claro que qualquer semelhança entre esta referência e Bagão Félix é inexistente: Bagão Félix não tem curriculum académico que se veja.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Referendo
Foi hoje a votos, na Assembleia da República, a seguinte questão especiosa: deve o Tratado de Lisboa ser ratificado por referendo ou, pelo contrário, pelos legítimos representantes do povo?
O Bengalão tem, naturalmente, uma opinião sobre o assunto. Não a revela, no entanto. Não vê o Bengalão que importância pode ter o que pensa sobre esta ou outras questões políticas. Diga-se apenas que o Parlamento tem toda a legitimidade para discutir e votar o modo de ratificação. O referendo é tão legítimo, mas não mais legítimo do que a ratificação parlamentar. Tudo o resto é uma questão de opinião e de juditiis non curat praetor, que é como quem diz, o Bengalão não se mete nas opiniões de cada um.
Depois de um debate morno e previsível, naquele tom gordo a que nos habituou o nosso Parlamento, foi a proposta de referendo posta à votação, com o resultado que consta do Diário das Sessões. Alguns Deputados, por razões que uns explicaram e outros não, decidiram votar de maneira diferente da do seu Grupo Parlamentar. O que é um direito que ninguém lhes negará.
Houve um certo número de Deputados, no entanto, que deixaram o Bengalão de castão à banda. Foram uns Senhores que votaram como entenderam e, no fim, declararam esta coisa espantosa:
Nós votámos assim, mas pensamos o contrário. Se votámos como votámos, foi por uma questão de disciplina partidária. O Bengalão traduz: Suas Excelências declaram que, na sua opinião, os interesses superiores do país, a lógica mais primária, a fidelidade mais branda a promessas feitas exige que a decisão seja A, mas que Suas Excelências votam B pela subida razão de terem sido mandados votar B. Ora, quando o Bengalão elege os seus representantes na Assembleia, faz com eles um contrato. O Bengalão dá-lhes um ordenado interessante, mordomias várias, o direito a que os tratem por Vossa Excelência, mesmo os mais burros e a garantia de que, durante 4 anos, o Bengalão, patrão magnânimo, lhes não dará ordens. Eles comprometem-se a puxar, o mais que podem, pelo bestunto, a não abusar demasiado das viagens de favor e a não obedecer a ninguém. O contrato é injusto? Uns dizem que sim, outros que não. Mas é um contrato.
Ora aqueles Deputados, nossos servidores, quase nossos criados, ao declararem que tinham votado conmtra a sua opinião, por estarem às ordens de uns Senhores que o Bengalão não conhece, mostraram que não cumprem a sua parte do contrato e, portanto, não são dignos de nos engraxarem as botas. Se eles ficassem mais um minuto sequer no Parlamento e pudessem, por exemplo, votar o Tratado de Lisboa, o Bengalão não saberia se eles estavam a votar no que pensam ou no que lhes mandam pensar. Mas o Bengalão está certo de que Suas Excelências, depois da declaração que fizeram, enviaram ao Senhor Presidente da Assembleia da República o único documento que pode restaurar a sua dignidade ferida: o seu pedido de demissão.
Etiquetas:
referendo deputado assembleia parlamento
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Mined
Estava o Bengalão a pensar que alguns dos seus amigos, aqueles que conhecem a sua paixão pela Educação e pela Escola Pública, hão-de estranhar nunca ter o Bengalão referido nem uma nem outra. Então o Bengalão, que de tudo fala, não diz uma palavra sobre a Escola?
O Bengalão deve confessar que o seu silêncio se deve, sobretudo, ao imenso respeito que nutre pela Senhora Minstra da Educação. Calma, Leitor. O Bengalão julgava que já te tinha convencido da virtude da paciência. O Bengalão, sensível como todos os humanos à lisonja, que neste caso é a atenção do seu Leitor, usa de manhas, de subterfúgios, para lhe prender os olhos ao ecran. E, tendo visto a sua dosezinha de filmes de Hollywood, tendo presente o seu Camilo, recordando-se ainda da sua Eneida, vai tentando, o melhor que pode e sabe, ferrar o seu peixe, que, neste caso, és tu, Leitor, e trazê-lo à borda da água, ou seja, ao fim do texto. Para isso, há que engodar com generosidade, iscar com finura, ter o pulso lesto e a mãozinha leve. E queres, Leitor, melhor engodo do que este, o imenso respeito do Bengalão pela Senhora Ministra da Educação? Portanto, caríssimo Leitor, calma e paciência, que, se são ínvios os caminhos do Senhor, os caminhos do Bengalão são, no mínimo, tortuosos.
A razão deste silêncio, não foi sempre, no entanto, absolutamente clara, nem mesmo para o próprio Bengalão. Quantas vezes, à noite, ao procurar a reparação da "morte pequenina", o Bengalão não se interrogou, por vezes com alguma aspereza: Então tu calas-te? Então tu não dizes nada? Então tu falas de tudo, ele é o Ângelo, ele é o Paulinho, ele é o Ingenhêro e, dela, nada? O Bengalão chegou mesmo a pensar consultar a Astróloga Maya, que é um dos serviços públicos mais mimosos que nos presta a televisão que todos pagamos. Não, Leitor, o Bengalão não se refere só à televisão pública, mas também à outra. Também somos nós que a pagamos. E nem é precisa a taxa.
Estava então o Bengalão a dizer que pensou até em consultar a Astróloga Maya. Mas a lista de espera era imensa, como é normal num serviço público deste país onde floresce a abóbora e o Marcelo pensa e a consulta era empurrada lá para Julho do ano que vem, o que era claramente tarde. Arriscava-se o Bengalão a estar a falar de uma Senhora que já não era Ministra de um Governo que já o não era. E o Bengalão não gosta de malhar em ferro frio.
O Bengalão decidiu então reflectir. E procurar, no fundo de si próprio, as razões de tão gritante silêncio. Para perceberes as conclusões a que chegou o Bengalão, tens de o acompanhar, Leitor, nesta viagem.
O Bengalão sempre teve uma ternura muito particular pela greve de zelo. A ideia da greve é forte, é corajosa, é decididamente masculina. Mas a greve de zelo, toda rendada, toda irónica, toda feminina, é incomparavelmente superior. (Já reparaste, Leitor, no ilogismo desta expressão que, no entanto, usamos, com variantes múltiplas, todos os dias? Só podemos saber que uma coisa é superior a outra se as compararmos. Ora, se as compararmos, elas podem ser tudo menos incomparáveis. Não há, assim, nada que possa ser incomparavelmente superior a seja o que fôr). Mas, sendo as coisas o que são, como dizia o Bonifácio (Ai, o Bonifácio dava um livro...), a greve de zelo sempre pareceu ao Bengalão incomparavelmente superior à greve tout court. Para avivar a tua memória, querido Leitor, uma greve de zelo consiste em cumprir, na íntegra e sem contemplações, todas, mas todas as regras, leis, normas e ordens que emanam da autoridade que enquadra o trabalhador. Para acreditar na potencialidade da greve de zelo, é precisa uma fé cega e total na capacidade da autoridade (de toda a autoridade) para criar regras inúteis e perniciosas. Está-lhe na massa do sangue. É a vida, como diria um Alto Comissário que todos conhecemos bem. O Bengalão tem essa fé. E deve confessar que fez algumas greves de zelo. Algumas sozinho. E, se o resultado nem sempre foi brilhante, pelo menos o Bengalão divertiu-se.
O Bengalão imagina o que vai pela cabeça do seu Leitor fiel. O que terá a greve de zelo, ou a vida do Bengalão, a ver com a Senhora Ministra da Educação? Mais um pouco, Leitor, e verás, uma vez mais, a lógica implacável do Bengalão.
O Governo do Ingenhêro não prima pela originalidade. É difícil, se virmos as ideias que sairam daquelas cabeças brilhantes, descortinarmos alguma que seja nova. O Bengalão avisa desde já que isto não é uma crítica. O Bengalão admite que, por vezes, a novidade não só não é sinónimo de qualidade, como pode trazer consequências graves e perniciosas. O Bengalão limita-se a constatar um facto. Para ser mais plástico, em jeito de exemplo, o Bengalão diria que este Governo ficará na História, como todos os Governos. Mas, daqui a uns séculos, quando os historiadores procurarem, de entre o número imenso dos Governos que, nessa altura, terão governado o país, para determinarem quais, pelas suas medidas originais, se distinguiram dos demais, dificilmente citarão o Governo do Ingenhêro. Não, Leitor, quando o bisneto do bisneto do Professor Hermano Saraiva, de braços no ar como quem dança a chula e com os olhos revirados para cima, entrar em casa dos bisnetos dos nossos bisnetos, pela televisão, para anunciar, de dez em dez minutos, o que vai tratar no seu próximo programa, não será do Ingenhêro que falará.
Assim sendo, uma Ministra que mostre um fumo de originalidade, nem que seja por ir de mini-saia e meias pretas para o Conselho de Ministros, merece o nosso respeito. Note-se que o Bengalão não tem notícia de que alguma Ministra, ou algum Ministro, aliás, tenha alguma vez ido a Conselho de mini-saia e meias pretas. Era apenas uma imagem, se bem que com possibilidades a explorar.
A Senhora Ministra da Educação, desde que começou a governar, tem-se distinguido pela quantidade de papeis que obriga os Professores a preencher. A Senhora Ministra da Educação põe em perigo a floresta da Amazónia, tantas são as árvores que será preciso abater para produzir as grelhas, os formulários, os planos, os planitos, as fichas, as cadernetas, os livros de actas, os livros de ponto, os testes formativos, os testes de avaliação, as nótulas, os relatórios, os recursos, as justificações que os Professores terão de conceber, produzir,apresentar à consideração superior de quem Sua Excelência mande. A Senhora Ministra da Educação tem obrigado os Professores a receber os pais a todo o momento, a fazerem reuniões de Conselhos, Assembleias, Comissões, Comités, Clubes e outras invenções da burrocracia. A Senhora Ministra tem obrigado os Professores a estarem nas Escolas sem fazerem nada (porque lhes não dá condições para fazerem seja o que fôr). De modo que pouco tempo resta aos Professores para fazerem aquilo para que lhes pagamos: ensinarem.
E nesta altura, pergunta o Leitor: Sim, e depois? O que tem isto a ver com tudo o resto? Com a originalidade, com a greve de zelo? Pois não vês, Leitor? Diz Zoroastro (não é todos os dias que se escrevem dois ZZ seguidos) que o mundo foi criado dual: para cada roca, seu fuso. No mundo laboral, este equilíbrio reflexo também se aplica: à greve opõe-se o lock out, grande pavor social no tempo em que havia empregos, como os mais velhos se lembrarão. A Senhora Ministra, num golpe de génio, inventou o que ninguém tinha ousado inventar: o lock out de zelo. É simples e elegante: atulham-se os Professores de papeis e trabalho administrativo, burocrático e de cosmética estatística. Assim se impede que eles ensinem.
Senhora Ministra da Educação, permita-me, em memória do Colégio da Cerdeira (isto do Colégio da Cerdeira é aquilo a que o Ingenhêro, se soubesse Inglês, chamaria uma private joke), que a trate por Lurdinhas. Lurdinhas, os meus respeitos.
domingo, 3 de fevereiro de 2008
Drama em três Actos (e a unidade de tempo que se lixe)
Acto I (há uns meses)
Há eleições "directas" para escolher o lider do PSD. O Bengalão mete as suas primeiras colheradas: por que é que havemos de dizer lider? Ou leader? Por que não Chefe? ou Caudilho? Ou Comandante? E por que se diz eleições directas? Há eleições indirectas? Se eu escolho quem escolha por mim, estou a escolher DIRECTAMENTE quem por mim DIRECTAMENTE escolha! (um quiasmozito de vez em quando sempre dá muito jeito.) Ou não é verdade?
Há então eleições para Luís Filipe. Na televisão, a defender o Luís Filipe mais provável, e que veio realmente a ganhar, aparece um sujeito de que há uns anos o Bengalão se fartou de rir, que encontrou uns pregos num automóvel estacionado perto de uma manifestação e veio para a televisão dizer que tinham sido encontradas armas em poder dos manifestantes.
Entreacto
O tal sujeito, que foi Ministro da Defesa, retirou-se do Governo e passou a representante, em Portugal, de uma grande empresa americana cuja principal actividade é a venda de armas e de que Portugal é fiel cliente.
Acto II (há umas semanas)
Grandes investimentos em Portugal!!! Portugal, que já tem a maior central fotovoltaica do mundo, vai ter a maior central fotovoltaica urbana do mundo!!! Portugal é grande!!! Portugal tem o Cristiano Ronaldo e a Central fotovoltaica do MARL!!! Arraial, arraial!!!
Quem disse isto, por outras palavras, foi o representante em Portugal de uma empresa americana de centrais fotovoltaicas, um sujeito que, porque encontrou uns pregos e vendeu umas fisgas, passa por grande especialista de questões geoestratégicas.
Acto III (há uns dias)
Mudanças no Governo. O Bengalão abre a TV e ouve o tal sujeito das armas fotovoltaicas, ou lá o que é, explicar muito bem por que é que a remodelação tinha sido uma derrota para o Governo do Ingenhêro.
Moral da história
Para que se não pense que o Bengalão não gosta de chamar os bois pelos nomes, o sujeito chama-se Ângelo Correia. E nenhum dos actos acima expostos é ilegal ou duvidoso, sequer. O Senhor Ângelo Correia tem todo o direito de ser Ministro, dirigente partidário, jornalista, vendedor de fisgas e caixeiro viajante.
O que o Bengalão tem o direito de perguntar, nem que seja na sua intimidade (Ai, a intimidade do Bengalão...), à puridade da sua reflexão, é o seguinte: Quando o Senhor Ângelo Correia, dirigente partidário, defende Luís Filipe, quem é que está a falar? Não será o Senhor Ângelo Correia, vendedor de fisgas? Quando o Senhor Ângelo Correia, especialista em geoestratégia, fala na televisão, quem é que está a falar? Não será o Senhor Ângelo Correia, caixeiro viajante? Quando o Senhor Ângelo Correia, jornalista, diz de sua justiça, quem é que está a falar? Não será o Senhor Ângelo Correia, dirigente partidário?
Na última mudança no Governo, a Televisão Pública foi perguntar aos partidos o que pensavam. A pergunta não tinha o mínimo interesse jornalístico. Todos nós sabíamos o que os partidos pensavam. No sentido mais puro da palavra, não era uma notícia, não era uma novidade. Mas, depois, a Televisão Pública foi perguntar aos seus dois comentadores residentes. Sem surpresas, o Senhor António Vitorino disse o que o PS tinha dito e o Senhor Marcelo Rebelo de Sousa o que tinha dito o PSD. Dir-se-á que isto mostra o pluralismo da RTP. Não mostra nada disso. Mostra que, ao fim de décadas, a televisão pública não foi capaz de saír do grau zero do jornalismo: produzir um comentador independente e respeitado. Refugia-se assim no politicamente correcto: pataca a mim , pataca a ti. E continua a mostrar-nos, todos os dias, as mesmas caras, hoje como jornalistas, amanhã como políticos, depois como empresários, no dia seguinte como académicos.
Há uns dias, leu o Bengalão num dos seus blogues favoritos, as minhas leituras, que a crise no BCP não era nova: já vinha nos Maias. Pois o Bengalão também acha que esta omnipresença do mesmo indivíduo com várias caras (eles dizem com várias qualidades, como se o não ter uma só cara não fosse um defeito: pois, eu até respondia a essa questão - para eles, os jornalistas não fazem perguntas, põem questões - mas, como estou aqui na qualidade de ... (sócio do Casa Pia, membro da Cruz Vermelha, cliente da Zara, etc...) não lhe posso responder), já lá vem no Eça: O bengalão cita:
O ministério foi assim constituido:
Presidente do Conselho: Marquês de Ávila e Bolama
Ministro dos Estrangeiros: Marquês de Ávila e Bolama
Ministro do Reino: Marquês de Ávila e Bolama
Ministro da Fazenda: Marquês de Ávila e Bolama, sob o célebre pseudónimo por tantos usado de - Carlos Bento da Silva
Ministro das Obras Públicas: Marquês de Ávila e Bolama, sob o suposto nome de - Visconde de Chanceleiros
Ministro da Justiça: Marquês de Ávila e Bolama, sob o anónimo - Sá Vargas
Ministro da Guerra: Marquês de Ávila e Bolama, sob a denominação inexplicável de - José de Morais Rego.
Acrescente-se a isto o jornalista Marquês de Ávila e Bolama, o comentador político Marquês de Ávila e Bolama, o empresário Marquês de Ávila e Bolama e estaremos muito perto dos dias de hoje.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
Musharraf
Não. O Bengalão não vai falar hoje das assinaturas de projectos que um jornal acusa o Ingenhêro de ter assinado sem ser o seu autor. O Bengalão não quer saber. Tanto se lhe dá que seja verdade ou não. O único interesse que poderia haver na notícia, se se verificasse a sua veracidade, seria o de aferir a estatura ética do Ingenhêro. Ora o Bengalão não tem dúvidas da estatura moral do Ingenhêro. Assim sendo, não vê qualquer interesse na notícia.
Não. O Bengalão, hoje, quer falar de Musharraf. Há já algum tempo, o Bengalão ouviu o Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros dizer que a União Europeia devia continuar a apoiar os esforços do General Musharraf para a democratização do Paquistão. O Bengalão não tem dúvidas de que o Senhor Ministro não estava a ser irónico. A ironia pressupõe alguma inteligência e, pelo menos, um soprozinho de ideias próprias. Ora, das muitas vezes que ouviu e leu as palavras do Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros, o Bengalão nunca vislumbrou nem uma nem outras. De política externa, o Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros parece saber que, pois, a Índia é a maior democracia do mundo, pois que a União Europeia tem uma coisa a que se chama valores, pois que Portugal tem uma vertente atlântica que é muito importante. E também sabe que nunca houve voos da CIA a passar em Portugal.
Ora bem. Este prócere da democracia (o Musharraf, não o outro), há uns tempos quis ser candidato à Presidência da República. Acontece muitas vezes a ditadores, depois dos golpes de Estado que os levaram ao poder. E as eleições sempre podem permitir ao Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros dizer que o Paquistão é, se não uma das maiores democracias do mundo, pelo menos quase. Mas acontece que o Supremo Tribunal do Paquistão veio dizer que a Constituição do País proibia a recandidatura do General, Chefe do Estado Maior-General das Forças Armadas, Primeiro-Ministro de facto (o itálico permite que se saiba que o Bengalão sabe latim) e Presidente da República.
Que tudo seja claro. O Bengalão não pretende conhecer a fundo as minúcias e meandros da Constituição de um país como o Paquistão, cuja cultura oriental e milenar, aliada à influência islâmica, lhe dá o hábito de escrever textos jurídicos ao lado dos quais o Tratado de Lisboa é um monumento de clareza e concisão. Não sabe assim o Bengalão se o Tribunal tinha razão, ou se se tratava de uma cabala (e não deixa de ter piada pensarmos no Supremo Tribunal do Paquistão metido numa cabala) para afastar o Senhor General, que o Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros considera o ventre que há-de parir a democracia, para espanto dos povos e lucro das empresas da nossa aldeia global, da reeleição.
O que fez, perante esta crise, o Senhor General, o Pai da Democracia? Demitiu os Juízes que eram contra a sua recandidatura e substituiu-os por outros, mais complacentes. O Supremo Tribunal reconsiderou, o Senhor General será candidato e tudo vai acabar bem. Quereis solução mais eficiente, mais simples, mais elegante, mais digna de um verdadeiro MBA de Chicago?
O Bengalão imagina que o Leitor, que no fundo é humano, que vem aqui à procura de novidades frescas, de produto nacional, não esteja muito contente com este caril requentado, quando estava à espera de um bom cozido à Portuguesa. Tem paciência, Leitor, lá chegaremos, o Bengalão é como os navegadores portugueses, que tiveram de dar a volta ao mundo para fazerem uma Pátria. Também o Bengalão, por muito longe que as palavras o levem, tem sempre o leme apontado a Portugal. E já vais ver, Leitor, que Mushrraf não está sozinho.
O Bengalão é um defensor do CAV (caro Leitor, o Bengalão não vê qualquer necessidade de usar a sigla francesa e acha que CAV - Comboio de Alta Velocidade - é bem melhor que TGV. O comboio é mais agradável, menos poluidor e agora pouco mais lento que o avião. O Bengalão acha, assim, que o CAV pode ser uma excelente solução para Portugal e para as suas relações, nomeadamente com a Espanha. Ora aí está uma coisa em que o Bengalão está de acordo com o Ingenhêro.
O Bengalão sabe que a construção das infraestruturas do CAV põe muitos problemas ambientais e que, no fim, nem tudo será perfeito. Que haverá pessoas que serão prejudicadas. O Bengalão espera que elas sejam devidamente indeminizadas, mas haverá, há sempre, pessoas prejudicadas. Mas a política é exactamente a arte do equilíbrio da decisão. E não há grandes decisões que não prejudiquem alguém. O Bengalão sabe isto. O Ingenhêro também sabe. Por isso, o Ingenhêro, ou alguém por ele, fez o que devia: encomendou um estudo de impacto ambiental.
O Leitor deve estar a pensar que deve ser do Carnaval. O Bengalão a dizer bem do Ingenhêro? O mundo está do avesso?
Mas quantas vezes tem o Bengalão de recomendar ao Leitor a virtude da paciência? Calma, Leitor, não queiras ir mais depressa que o CAV.
O que aconteceu, então, ao estudo de impacto ambiental? Aqui o Bengalão hesita na escolha das palavras justas. Custa-lhe dizer o que aconteceu. Parece que os técnicos que deviam fazer o estudo tiveram muitas dúvidas sobre o traçado proposto, que atravessa mesmo uma povoação. (Já reparaste, Leitor, que, quando uma coisa destas, uma linha de alta tensão, uma linha de comboio, uma estação de tratamento de águas ou de lixos tem de ser instalada perto, ou mesmo dentro de uma povoação, nunca é na Quinta da Marinha?). Os técnicos tinham, assim, muitas dúvidas sobre o traçado. Que fazer? como dizia o Lenine e o mau teatro, como resolver o impasse? A solução, elegante, simples, eficiente, digna dos MBA de Chicago a quem o Ingenhêro paga, com o nosso dinheiro, fortunas em consultadoria, foi encontrada. Foram demitidos os técnicos, substituidos por outros. E pronto, não se fala mais nisso. O CAV pode avançar, a toda a velocidade, sem que ninguém possa acusar o Ingenhêro de não ter feito o necessário estudo.
O Bengalão aconselha o Ingenhêro a fazer uma nova remodelação governamental. Livre-se do Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros. Porque, se não, arrisca-se o Ingenhêro a ouvir o Senhor Ministro, com aquele ar sério que ele sabe pôr, bem penteadinho, dizer a quem o quiser ouvir que a União Europeia deve continuar a apoiar os esforços do Ingenhêro para a democratização de Portugal.
Etiquetas:
projecto assinatura engenharia Musharraf CAV
Subscrever:
Mensagens (Atom)