sexta-feira, 23 de maio de 2008

Francisco Lucas Pires

Fez ontem 10 anos que Lucas Pires deixou de estar entre nós. O Bengalão teve o privilégio de partilhar com ele momentos, por vezes por razões profissionais, por vezes porque Lucas Pires era um Homem a quem as actividades sociais ligadas ao exercício do poder fatigavam depressa. Fugia assim muitas vezes das lantejoulas que acompanham as obrigações de quem exerce cargos públicos de grande responsabilidade, e refugiava-se no anonimato de contactos menos aparatosos, mas concerteza mais verdadeiros, em que revelava a pessoa que estava por detrás do político. Lucas Pires era um homem de convicções, um democrata conservador com uma consciência social muito atenta, de que Portugal teria hoje uma necessidade gritante. O Bengalão sossega desde já os seus amigos que estarão a pensar Olha este, queres ver que virou a casaca? O Bengalão não se revê nas ideias políticas de Lucas Pires. Nunca se reviu. Mas, como ele democrata convicto, acha que todas as ideias, mesmo as suas, são perigosas se forem promovidas a pensamento único. Por isso pensa que, no Portugal de hoje, um homem como Lucas Pires faria muita falta. Por razões históricas que toda a gente conhece, não há, em Portugal, uma grande tradição de Direita democrática. E O Bengalão pensa que Portugal precisa de uma Direita que não seja nem um espectáculo de gosto discutível, nem uma mera agência de empregos. Lucas Pires podia ser, se não tivéssemos todos sofrido a perda enorme da sua morte, o dirigente dessa Direita. O Bengalão não votaria nele, é certo, mas dormiria descansado no dia em que ele ganhasse as eleições. Para além disso, O Bengalão recordará sempre o Homem cultíssimo, conversador extraordinário, com um facílimo contacto com os grandes do poder e com a pessoa encontrada ao acaso, na rua, num país estrangeiro em que quase ninguém sabia quem ele era. Recordará a extraordinária urbanidade de um Homem que sabia ouvir, a lucidez com que compreendia mesmo aquilo que acabava de aprender, a curiosidade extraordinária que o levava a dar atenção a tudo, mas mesmo tudo, o que se passava à sua volta. O Bengalão lembrar-se-á, também e sempre, da nostalgia e do amor com que, quando estava fora de Portugal, falava da sua família.
Tê-lo conhecido foi um privilégio. E O Bengalão, que é um priveligiado, quis partilhar contigo, Leitor, este momento de saudade. Que os dois Partidos a quem tanto deu não tivessem, sequer, vertido uma lágrima de circunstância, apenas aumenta a saudade.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Educação, mais uma vez

Como todos sabemos, o Governo está empenhado em desenvolver o uso das tecnologias da informação em todos os graus de ensino.

O Bengalão, que não está com disposição para escrever, limita-se, une fois n'est pas coutûme, a transcrever, com a devida vénia, estes dois artigos, da edição de ontem de Le Soir e a pedir encarecidamente à Lurdinhas que os leia. Não são opiniões, são dados factuais provenientes de estudos levados a cabo por instituições inatacáveis.


Génération « copier-coller » ?
BENJAMIN MORIAME
mercredi 21 mai 2008, 09:31

Comment les jeunes cherchent-ils une information ou un document ? Quels sont leurs principaux défauts ? Petit florilège des lacunes épinglées par les chercheurs.
Source. Premier piège à éviter, selon les responsables de l’étude : le « réflexe internet ». Or, c’est justement leur constat principal : la grande majorité des jeunes choisissent le moteur de recherche (Google, Yahoo…) comme source prioritaire. La base de données bibliographiques, considérée comme « la bonne réponse », ne recueille que 1,2 % des suffrages ! Certains inscrivent la télévision dans la case « autres ».

Qualité. Les étudiants ne sont pas capables de faire preuve d’esprit critique face à un site internet. Seuls 13,4 % savent comment juger de la qualité des informations, qui est fonction de l’auteur. Ils sont plus nombreux à juger de la qualité selon que le site est accessible rapidement.

Éthique. Les connaissances en matière d’éthique sont parmi les plus lacunaires : moins de 15 % savent qu’ils doivent toujours identifier leur source, même lorsqu’il s’agit d’une page web. Génération « copier-coller » ?

Mots clés. Plusieurs questions consistaient à déterminer, pour un sujet donné, des mots clés à utiliser dans les moteurs de recherche. Les résultats sont très faibles. La première des questions de ce type, probablement la plus facile, a recueilli un quart de bonnes réponses.

Opérateurs booléens. Un jeune sur trois ignore la signification des sigles « et », « ou », « + » et « sans » pour un moteur de recherche. Beaucoup ignorent que ces sigles conventionnels, appelés « opérateurs booléens » (du nom de Boole, qui les a définis), ne sont pas utilisés de la même façon par les différents moteurs de recherche disponibles en ligne.

Encyclopédie. Six étudiants sur dix savent que l’encyclopédie est le meilleur moyen pour aborder un sujet méconnu. Tout n’est pas perdu.


La génération Google est busée
BENJAMIN MORIAME
mercredi 21 mai 2008, 09:31

S'INFORMER via internet n'est pas simple. La preuve ? Les jeunes en sont incapables, révèle une étude.
Les étudiants qui arrivent dans l'enseignement supérieur, pourtant habitués à l'utilisation de Google, MSN et Myspace, affichent de profondes lacunes en matière de recherche documentaire et informationnelle, y compris via internet », indique une étude présentée mardi lors d'un colloque à l'Université de Gembloux, réalisée par l'ASBL Edudoc et le Conseil interuniversitaire francophone (CIUF). Les 1.865 jeunes qui ont répondu à l'enquête obtiennent une note moyenne de 7,67 sur 20, tandis que 93 % n'obtiennent pas la « satis ».
Contre toute attente, les résultats ne sont pas meilleurs chez les 94 % d'étudiants qui disposent d'une connexion internet à domicile. Au contraire, ceux-là se trompent plus lourdement. Des constats similaires avaient été posés au Canada, où l'enquête a été rédigée et appliquée une première fois. Les Canadiens obtiennent néanmoins des résultats légèrement supérieurs avec une moyenne de 8,97.
Parmi les défauts majeurs des jeunes (lire par ailleurs), les chercheurs épinglent surtout le recours prioritaire quasi systématique à internet, aux dépens des ressources traditionnelles de la bibliothèque. Or les étudiants manqueraient gravement d'esprit critique face au web et ne seraient pas compétents pour utiliser les moteurs de recherche.
« Il existe des outils de très haut niveau sur internet, mais il faut pouvoir les dénicher sans se laisser attirer par les fausses pistes », précise Paul Thirion, codirecteur de l'étude et président de la commission bibliothèque du CIUF. Une connaissance des bibliothèques est un atout pour naviguer sur la Toile : les performances des jeunes augmentent en fonction de leur fréquentation des centres de documentation.
L'influence de la mère
Les résultats des étudiants s'améliorent également en fonction du niveau d'enseignement de leur mère. Celui de leur père est moins influent. Les universitaires (8,13) connaissent des lacunes moins sévères que les non-universitaires (7,05). Les étudiants en littérature ou en sciences exactes affichent les résultats les plus élevés et les futurs instituteurs ou régents les plus mauvais. Enfin, les jeunes ayant suivi les options « latin » ou, dans une moindre mesure, « maths fortes » sont également plus performants.
Les ministres en charge de l'Enseignement vont être informés par les responsables de l'étude. « Nous plaiderons pour le renforcement des cours de recherche documentaire dans l'enseignement supérieur alors que nous ne sommes pas sûrs, actuellement, qu'ils seront maintenus, commente Bernard Pochet, codirecteur de l'étude et président de l'ASBL Edudoc. Nous souhaitons la généralisation des formations à la recherche documentaire dans l'enseignement secondaire. »

Torcato Sepúlveda

Quando O Bengalão fez hoje aquilo que faz todas as manhãs, abrir o computador e ler O Público, foi brutalmente agredido pela notícia da morte de Torcato Sepúlveda. Outros farão o elogio do Jornalista exemplar, do Crítico agudo, do Professor de muitos dos que hoje escrevem sobre cultura. O Bengalão prefere guardar os olhos doces do amigo que conheceu na Faculdade, do Homem de coragem sempre pronto para enfrentar a polícia nos anos loucos das crises académicas de Coimbra, da independência de quem, mesmo ali, sempre se negou a seguir com a maioria. O Bengalão recordará a irreverência de Torcato, os excessos de Torcato, os cabelos compridos de Torcato, a sua enorme, imensa generosidade, o lume que o habitava, o seu sentido de humor acre como o vinagre balsâmico de Modena. O Bengalão levará consigo a inquietação do Companheiro a quem, segundo dizia, até os periscópios oprimiam. Hoje, todos perdemos muito. Não há em Portugal muitos homens livres. Torcato era (é) um deles. Encontrar-me-ei contigo, Companheiro, no poço fundo da minha memória, onde começam a viver muitos dos que amo.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Mouros

Se leste o post anterior, caro Leitor, sabes que O Bengalão prometeu que te ia comunicar o resultado da sua exaustiva investigação sobre o mito, comum nas plagas nortenhas, de que os Mouros, em Portugal, vivem abaixo do Mondego, onde constituem a quase totalidade da população. O Bengalão procedeu, se bem te lembras, a uma investigação aturada, e exaustiva que demorou exactamente o tempo imenso que vai, na vida d'O Bengalão, entre o pequeno almoço e a primeira pausa para o café, ou seja, quase meia hora, estudo que incluiu até, imagine-se, a consulta atenta da obra Factos da História de Portugal, do Professor Hermano Saraiva, edição de bolso da Europa-América para a sua colecção O Riso é o Nada que é Tudo (Haverá humor em Portugal depois de José Vilhena?), dirigida por Manuel Maria Carrilho e distribuída gratuitamente nos Supermrcados Continente.
As conclusões a que O Bengalão chegou são claras e irrefutáveis. Além disso, dão ainda mais razão a'O Bengalão que, quando ouve falar de regionalização sem lhe dizerem como e para quê, pensa sempre que lhe querem ir ao bolso. A coisa é fácil de explicar e resume-se assim: na Guarda não há um museu subsidiado pelo Estado. Apesar de o Teatro Municipal da Guarda ter uma das melhores programações do País (se não acreditas, Leitor, vai ver, está tudo na rede), isso deve-se ao dinheiro dos habitantes da Guarda, pagos nos bilhetes e com o orçamento da Câmara Municipal, e ao empenhamento do Presidente da Câmara e do Vereador da Cultura, para além do trabalho, da persistência e da competência do Américo Rodrigues, a quem a Guarda muito deve. O Estado português não esportula um cêntimo. Na Guarda não há uma rede de transportes com subsídio estatal, apesar de, entre a estação do caminho de ferro e o centro da cidade mediarem 6 longuíssimos e íngremes quilómetros. Na Guarda, o Governo do Ingenhêro encerrou a Maternidade. Na Guarda, apesar de ser uma das regiões mais fustigada pelos fogos florestais, não há um corpo permanente de bombeiros profissionais, nem sequer um quartel de tropa macaca para ajudar os Voluntários que nos defendem. Na Guarda não há nada disto. Os impostos pagos pelos cidadãos da Guarda servem, entre outras coisas, para pagar o Teatro Nacional de D. Maria, e os Museus Nacionais todos, e o passe social dos Lisboetas, e a rede hospitalar da capital, e os Sapadores Bombeiros de Lisboa, e o resto que se sabe. Dir-se-á que é normal, todos os países têm uma capital e tem de se tratar a capital de modo a que esta sirva de atracção que beneficiará o país todo. O Bengalão não discutirá isto, apesar de não lhe parecer que o argumento justifique todo o dinheiro que a Guarda paga para que Lisboa viva melhor nem o dinheiro que Lisboa não paga para que a vida, na Guarda, seja menos dura. O Bengalão não discutirá isso. Tratará Lisboa como se esta fosse uma Senhora a que O Bengalão pôs casa, e que, de vez em quando visita. Quem não tem dinheiro não tem vícios e O Bengalão é um mãos largas.
Parece-te, Leitor, que O Bengalão ensandeceu de vez? Que estes argumentos, lógicos, sensatos, irrespondíveis, parecem ser mais a favor da regionalização do que contra ela? Estás enganado, Leitor, e já vais ver por quê.
Desde há uns anos, tem O Bengalão ouvido e lido personalidades conhecidas do Porto defenderem a regionalização nos seguintes termos: Portugueses somos nós, os de Lisboa são Mouros, se não fôssemos nós, ainda andavam todos de babuchas e a fazer salamaleques, daqui houve nome Portugal e, portanto, queremos o que é nosso. Uma região, o Norte, do Atlântico aos Urais de cá, que são em Trás-os-Montes, com a capital no Porto e que termine com este insulto à verdadeira fé e à pureza da grei.
Ora esta posição não tem qualquer respeito pela verdade histórica. Dizer que os Mouros estavam lá em baixo e que os Nortenhos vieram por aí abaixo conquistar a Mourama é um disparate. O Bengalão está em condições de afirmar, depois de aturado estudo, que o que se passou foi o seguite: Onde hoje é Portugal, antes do Judas perder as botas, antes mesmo de ser Presidente da Câmara de Cascais, vivíamos nós, os Celtiberos, em paz com as nossas ovelhas e as nossas montanhas. Fomos invadidos pelos romanos, mas estes, que eram decadentes, preferiram a praia aos Montes Hermínios e deixaram-nos em paz, com as nossas montanhas e as nossas ovelhas. Perdemos algumas terras, mesmo algumas gentes, mas, como as montanhas eram nossas, aceitámos tudo com guterriana resignação: É a vida... Uns séculos mais tarde, fomos atacados por dois grupos de bárbaros, uns vindos do Norte, outros do Sul, todos a tentarem convencer-nos de que possuiam a religião verdadeira e sabiam de que material era feito Deus. Nós, que sabíamos bem que de barro tínhamos criado deuses à nossa imagem e semelhança, todos fortes como as nossas montanhas e úberes como as nossas ovelhas, sorrimos e fomos indo mais para cima, para o mais alto dos Montes Hermínios. Godos e Mouros, assim se chamavam os bárbaros, guerreavam-se nas praias. Nós estávamos em paz com as nossas ovelhas e as nossas montanhas. Até que um dos bárbaros do Norte teve uma ideia luminosa. Aproveitando o facto de os dirigentes dos Mouros terem ido ao Algarve passar umas férias, veio por aí abaixo, tomou conta das terras até ao Mondego e, genial como só um bárbaro pode ser, levou toda a gente (todos os Mouros!) para cima, para o Norte, para que, quando os Chefes Mouros regressassem, não tivessem quem lhes preparasse o cuzcuz ou engomasse a jilaba. O bárbaro, Vímara Peres, chamou a isto nomes fortes e tão bárbaros como ele, a presúria e o ermamento. De modo que, na vasta região entre Douro e Mondego, só ficámos nós, em paz com as nossas montanhas e as nossas ovelhas, lá no cimo dos Montes Hermínios, onde não chegou a fúria vimaranense.
Parecer-te-á, caro Leitor, que esta versão dos factos se afasta ligeiramente da realidade. Mas esse é o Destino da História. No dia em que a História contasse a Verdade, com maiúscula, deixava de existir.
Sabe-se o resto. Sabe-se que nós, os verdadeiros Portugueses, fomos recuando e subindo cada vez mais. Sabe-se que hoje estamos confinados à cidade da Guarda, mais precisamente à freguesia de S. Vicente. Sabe-se que os Godos, incapazes de competir com os Mouros em termos de produtividade filhícola, se foram afogando no mar de Mouros que tinham trazido do Sul. E a situação é hoje esta: em Portugal há uns poucos milhares de verdadeiros portugueses, concentrados na freguesia de S. Vicente, na Guarda. O resto, tudo Mouros. O Luís Filipe, Mouro, o Pinto da Costa, Mouro, o António Barreto, Mouro, a Agustina Bessa Luís, Moura, todos Mouros, o Manoel de Oliveira, o Siza Vieira, o Rui Rio, a Deuladeu Martins, o Bispo do Porto, o Camilo Castelo Branco, o Sá Carneiro, o Pedro Burmester, o Vitor Baía e o Homem do Laço. Todos Mouros. Todos os Tripeiros, e os de Braga, e os de Viana, e os de Guimarães, e os de Amarante, todos os portugueses fora de São Vicente, todos, mas todos, Mouros. Com a notabilíssima excepção da minha amiga Vera, que é judia. O Bengalão conhece a Vera há muitos anos e, como diria o Ingenhêro se soubesse Inglês, sacrifica à deusa da coragem mais na ara das palavras do que no altar das acções. Nunca se atreveria, portanto a chamar Moura à sua amiga Vera.
Ora os verdadeiros Portugueses, que já têm de pagar os luxos mornos e sedosos da Cidade Branca, não vêem por que hão-de pagar também os luxos tersos e vigorosos da Cidade Negra. Para voltar à Senhora a que O Bengalão pôs casa, não quer O Bengalão pôr casa a outra. Faltam-lhe para isso vigor e cabedais.

Tripeiros e Alfacinhas

Alguns amigos, depois de lerem o que O Bengalão disse sobre António Barreto, acusam O Bengalão de ser um periculosíssimo centralizador, que é o mais novo dos mimos com que se ataca quem age como se Portugal fosse Lisboa e o resto paisagem. Pois tu, Bengalão, tu cujas raízes mergulham fundo nos granitos da Guarda, tu, glorioso fundador da Frente de Libertação da Egitânea, tu, Bengalão, és contra a regionalização? E atiram-se a O Bengalão com todo o vigor destas rimas explosivas. Ora O Bengalão quer deixar claro que não é contra a regionalização. Também não é a favor, aliás. A regionalização não é, não pode ser, um fim em si. É um meio. O Bengalão confessa que partilha alguns dos objectivos de que a regionalização pode ser ferramenta fundamental. Mas as ferramentas podem ser usadas para coisas muito diferentes. A sachola com que o camponês de Júlio Diniz lavrava amorosamente a terra era também usada em Miguel Torga para resolver, de maneira brutal mas eficaz, alguns diferendos de águas. Não temos nós a prova disto em Portugal? A regionalização portuguesa produziu duas realidades distintas, e a diferença entre as duas regiões autónomas não tem nada a ver com os partidos que as governam. O Bengalão distingue bem a boçalidade gorda do Senhor Jardim da secura monacal do Senhor Mota Amaral (a propósito, conte-se que O Bengalão teve a oportunidade de cumprimentar, em ocasiões diferentes, os dois Presidentes. Nas breves palavras de circunstância que trocou com cada um deles, o Senhor Jardim revelou-se amável e urbano, e o Senhor Mota Amaral foi simplesmente malcriado. As aparências enganam). Segue-se portanto que O Bengalão, antes de responder à pergunta: és a favor ou contra a regionalização, procura responder às seguintes, que se lhe antecedem: regionalização para quê? Sou a favor ou contra esse objectivo? Há ou não há outras maneiras de o atingir? Quais dessas maneiras têm menos efeitos colaterais negativos? Quanto custa cada um desses caminhos? Depois de responder a estas perguntas, O Bengalão saberá se é a favor ou contra, naquele momento e para aquele fim, daquela regionalização concreta.
Há no Porto, que é uma cidade cosmopolita e civilizada, um grupo de populistas que, incapazes, ignaros, sem memória nem cultura nem inteligência, passam a vida a queixar-se de Lisboa. Luís Filipe é um bom exemplo disso. Disse a Luminária de Gaia que foi derrubado da cadeira do poder porque é um homem do Norte. Quando toda a gente sabe que, para Luís Filipe chegar ao poder, derrubou um homem de Vila Nova de Famalicão para quem Luís Filipe, que vinha de Gaia, era quase um Mouro. Estes populistas baseiam o seu discurso em dois pressupostos: Que, abaixo do Mondego, só há Mouros; que, para um Alfacinha, Portugal é só Lisboa e o resto é paisagem. O Bengalão procurará desmontar hoje o segundo destes pressupostos. Quanto ao primeiro, O Bengalão está a realizar uma investigação científica, séria, profunda, aturada e exaustiva, que começou hoje ao pequeno almoço e terminará dentro de cinco minutos, à hora da pausa do café, o que lhe permitirá, ainda hoje, iluminar a tua inteligência, Leitor.
A afirmação, tantas vezes repetida, de que, para um Alfacinha, Portugal é só Lisboa e o resto é paisagem é falsa e resulta de uma profundíssima ignorância das volutas do cérebro do Lisboeta. A visão do mundo do Alfacinha, a sua Weltanschauung, como diria o Ingenhêro se fosse capaz de ler um livro do Carrilho até ao fim sem adormecer, é muito mais complexa do que o preconceito tripeiro deixa perceber. O Bengalão, observador atento, começou a notar isto quando reparou que todos os seus amigos alfacinhas consideravam que ele vinha do Norte. Vocês, lá no Norte... Então quando voltas para o Norte? O Bengalão, depois de os esclarecer, como era seu dever, Você, na minha terra, é um burro, bem tentava explicar que não, que a Guarda não é no Norte, chegando mesmo, sendo, como é, um monstro de sensatez, a tentar explicar que num país em que as assimetrias são mais na longitude do que na latitude, fazia mais sentido perguntar a O Bengalão, Então quando voltas para o Leste? do que repetir a pergunta sacramental. O Bengalão chegou mesmo a atitudes extremas e, de há uns anos a esta parte, quando um Alfacinha lhe pergunta, Então de onde és?, O Bengalão responde, provocador, Sou da Guarda, província de Salamanca. O Alfacinha não tuge nem muge. Nada surpreende um Alfacinha. E diz, Ai sim? Que giro! Então quando voltas para o Norte? Procurou O Bengalão compreender as razões profundas deste comportamento e as conclusões a que chegou abrem, passe a imodéstia, caminhos absolutamente novos para abarcarmos toda a complexidade da visão que o Alfacinha tem do mundo.
Vejamos, então. Para o Alfacinha, o mundo divide-se em três partes, ou, como diria o Ingenhêro se tivesse lido os seus clássicos, omnis terra divisa est in partes tres, a saber: o Estrangeiro, a Praia, e Este País. O Estrangeiro é um sítio que pode ser muito bonito, mas vê lá se eles têm lá melhor do que esta merda. Esta merda pode ser quase tudo, do queijo da Serra ao Nuno Gomes, dos pastéis de Belém à Mariza, dos caracóis da Graça à Soraia Chaves. O Estrangeiro localiza-se em Badajoz. A Praia divide-se em duas partes, a saber, o Allgarve, onde o Alfacinha passa os fins de semana, e o Brasil, onde passa férias. O Alfacinha não passa fins de semana no Brasil porque é longe e vai lá passar férias porque ali, ao menos, fala-se Português.
Este País divide-se em três partes: A Lisboa-Mor, a Outra Banda e o Norte. A Lisboa-Mor é formada por três anéis. O central, Lisboa, é constituído por quatro praças, a Praça do Município, o Terreiro do Paço, o Rossio e os Restauradores. Em Lisboa não vive ninguém. À volta de Lisboa, nos bairros periféricos de Alfama, Mouraria, Bairro Alto, etc., vivem os Alfacinhas. Estes bairros, junto com Lisboa, formam a Grande Lisboa. A região à volta da Grande Lisboa, e que com esta forma a Lisboa-Mor, divide-se também em três partes: as Quintas, onde dantes o Alfacinha ia fazer pic-nics e agora já não vai porque Que horror, não há pachorra, Sintra que, como sabem todos os Alfacinhas, é a terra mais bonita do mundo, onde dantes o Alfacinha ia às Espanholas e agora não vai porque, como é do conhecimento de qualquer Alfacinha, o IC 19 é a rodovia mais congestionada do mundo e o Alfacinha não gosta de andar de comboio, e a Linha do Estoril, que vai da Madragoa à Praia do Abano, onde dantes o Alfacinha ia à praia e agora vai comer feijoada de gambas. A Outra Banda divide-se em duas partes, o Alentejo, donde dantes o Alfacinha importava coentros, migas e mulheres a dias e agora não sabe para que serve, e o Deserto, onde não há Escolas, nem Hospitais, nem Estradas, onde dantes o Alfacinha ia comer caldeirada e olhar para Lisboa e agora não vai porque a zona foi desactivada pelo Ministro Jamé. O resto d’Este País chama-se O Norte. Já foste àquela tasca de Campo de Ourique, o Curral da Mula? Come-se lá um cozido, pá... E, depois, em voz sussurrada e segredante, O dono é do Norte, e manda vir de lá o enchido todo... O Norte é, assim, o País mítico donde vêm as chouriças.
E pronto. O Bengalão espera ter destruído, definitivamente, a atoarda segundo a qual, para o Alfacinha, para além de Lisboa, só há a paisagem.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Não fumadores

O Bengalão também pensou, como toda a gente, dizer umas graçolas sobre as cigarradas que foram fumadas a bordo de um avião da TAP a caminho de Caracas. O Ingenhêro, pouco prudente, entrou num avião sem estar acompanhado de quatro acessores fundamentais, como faz qualquer pessoa avisada, a saber, um jurista generalista para lhe explicar que um avião, mesmo fretado, se é usado ao serviço do Governo, é um lugar público e, portanto, está no âmbito da legislação, aprovada pelo Ingenhêro, que restringe, nesses locais, o uso do tabaco, um jurista especializado em Direito laboral para lhe explicar que as hospedeiras da TAP, quando vão no avião, fardadas e a oferecer espumante, estão a trabalhar e, portanto, estão cobertas pela legislação, aprovada pelo Ingenhêro, sobre o uso do tabaco nos locais de trabalho, um jurista especializado em Direito internacional, para lhe explicar que o avião da TAP, mesmo voando fora do espaço aéreo português é território nacional e, portanto se lhe aplica a legislação, aprovada pelo Ingenhêro, sobre o exercício do vício de Nicot e, last but not least, como diria o Ingenhêro se soubesse Inglês, um Engenheiro, dos verdadeiros, daqueles que faz mesmo projectos e que estudou para obter o seu diploma, para lhe explicar que um avião, em pleno voo, é um espaço fechado, sendo assim proibido, nos termos da legislação aprovada pelo Ingenhêro, fumar a bordo. O Ingenhêro não teve essa precaução mínima e, como adquiriu o seu diploma na Universidade Independente, não tem por hábito pensar, e, assim, não lhe ocorreu perguntar à hospedeira, coitadito. O Bengalão também queria molhar a sopa. Mas, depois de ver o post do Xico da Popelina, aqui , acha que não é necessário.

domingo, 18 de maio de 2008

A Televisão e os Populares

A história conta-se em três penadas. Um agricultor transmontano, de 65 anos, calculou mal uma manobra quando conduzia o seu tractor, este virou-se, matando o infeliz. Foi um acidente banal e frequente, num país em que o Governo ainda não se lembrou de proibir a venda de tractores sem cobertura de protecção.
Ora O Bengalão soube do caso pelo Telejornal. O que fez a Televisão? Pois tentou transformar isto num espectáculo, que é o que sempre faz. Se a Televisão tivesse algum pudor e alguma decência, nem sequer tinha dado a notícia, que só é relevante para a família enlutada, deixando esta na paz que se quer para todas as coisas importantes da vida, ou seja, o nascimento e a morte. Se fosse competente, a Televisão tinha imediatamente encarregado um dos seus jornalistas de começar a preparar um programa de investigação, para que nós, daqui a uns meses soubéssemos quantas pessoas morrem em Portugal por ano em acidentes destes, e a razão pela qual o Governo não entende que se justifiquem regras de protecção para quem, por não ter instrumentos de trabalho seguros, morre a trabalhar.
Mas a Televisão não é nem decente, nem competente. E, assim, como o Fernando Mendes não estava disponível para a reportagem, enviou para o local uma lambisgoiazita a fingir de jornalista, que chegou a uma cena gritante de vazia, em que não havia já nem tractor, nem cadáver, nem sequer, ao menos, viúva lacrimejante ou filho inconsolável.
A lambisgoia, em desespero de causa, aplicou o Artigo único do Livro de Estilo da RTP: Quando, por circunstâncias imprevisíveis, a viúva, sem qualquer respeito pela Comunicação Social, se recolher ao recato da sua casa para começar a chorar o seu morto, antes da Televisão poder recolher as lágrimas que lhe cabem, deve entrevistar-se um Popular. Foi o que fez a lambisgoia. A resposta do Popular, identificado em rodapé como "Testemunha" foi modelar: pois, sabe, eu quando cá cheguei já estavam a tirar o corpo. Não tinha, portanto, assistido a coisa nenhuma. A lambisgoia, persistente, não desistiu. E entrevistou o Comandante dos Bombeiros de Bragança que, fardado e tudo, declarou: "Quando chegámos, a vítima estava em estado de cadáver". Se repararmos bem, a profundidade da declaração é imensa. A morte é um estado. A vida também. A isto se chama teoria quântica da vida. Os ares de Trás-os-Montes fazem milagres.
A atracção da Televisão pelos Populares é extraordinária. E O Bengalão confessa que tem um sonho na vida. Estar presente quando aconteça um destes desastres em que a vida é pródiga, só para que, quando a lambisgoia de serviço avançar para O Bengalão, de microfone em riste, dizendo, com aquela voz ondulada que eles aprendem agora nas Faculdades de Comunicação Social, Senhores espectadores, o cenário é indescritível, temos aqui um Popular (o Popular é O Bengalão), O Bengalão lhe poder dizer, em directo e ao vivo: Vai chamar Popular ao cqtf.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Cancro da mama

O Bengalão estava a trabalhar e a ouvir, distraidamente, a RTP. De repente, o programa versa histórias de mulheres que sobreviveram a cancros da mama. Todas histórias de coragem e de vontade de viver. Todas mulheres bonitas, sorridentes, serenas, com quem apetece estar. Simone de Oliveira contou que se recusou a fazer uma reconstrução mamária depois da mastectomia radical a que foi sujeita. E disse que é perfeitamente possível continuar a ser mulher, e ser bonita, e ser atraente, e ser sedutora depois de sofrer um ataque tão radical como este à integridade física. O Bengalão acha que Simone tem toda a razão. Tem razão a Mulher bonita, e atraente, e sedutora que Simone de Oliveira é. Com cancro ou sem ele.

domingo, 11 de maio de 2008

Futebol

Atenção, Leitor, muita atenção. Para edificação dos Povos e espanto das Nações, O Bengalão vai falar de futebol. Saberás, Leitor, não podes deixar de saber, se não tens passado os últimos meses escondido no fundo do poço da Quinta da Regaleira, a meditar na Glória do Grande Arquitecto do Universo, que a Justiça Portuguesa pensa que há fortes indícios de que dirigentes de alguns clubes de futebol tenham, entre outros mimos, corrompido e coagido árbitros, falsificado documentos, alterado, sistematicamente, classificações e nomeações de árbitros. A Comissão Disciplinar da Liga de Futebol pensa o mesmo. Três clubes de futebol, alguns dirigentes e árbitros foram disciplinarmente condenados por quem, em nome do Estado, exerce o poder disciplinar no futebol. Os condenados têm direito a recurso para um orgão presidido por um subordinado de um dos arguidos e dirigente de um dos clubes suspeitos.
Assim que se soube da decisão, alguns senhores que há uns anos compraram uns óculos de aros finos e passam, por isso, por intelectuais, apressaram-se a declarar que as condenações eram um ataque do centralismo ao Norte do País, escamoteando o facto de que um dos três condenados ser um clube de Leiria, que só com muito esforço pode ser considerada uma cidade do Norte. O Bengalão não liga muita importância a estas baboseiras, de tal modo está habituado a ouvir alguns demagogos do Norte a gritarem, escandalizados, de cada vez que alguém ousa uma crítica, mínima que seja, à Invicta.
Mas O Bengalão leu, com surpresa, o que escreveu António Barreto. Ora António Barreto é um homem que O Bengalão respeita. Que Miguel Sousa Tavares, que vê o mundo a preto e branco, embora tenha cara de quem a vê a preto e preto, escreva as inanidades a que há anos nos habitua deixa O Bengalão mais granítico que a Sé da Invicta. Que Manuel Serrão, de cada vez que alguém, um investidor, um artista, um professor, escolhe Lisboa para as suas actividades
espume de raiva e grite contra a descriminação de que está a ser vítima o Norte, deixa O Bengalão mais marmóreo do que as lápides do Instituto do Vinho do Porto. Mas tu, Barreto? Tu quoque, Antonie?
O que disse então António Barreto? Disse isto: "Não é admissível que um clube do Norte provinciano exerça uma hegemonia quase sem falhas. O Porto haveria de pagar." Esta afirmação, vinda de quem vem, é particularmente grave. Comece por se notar que Barreto, de uma forma desonesta a que nos não tinha habituado, escamoteia o tratamento dado ao Leiria e faz um amálgama inaceitável entre Norte e Porto. Como se dissesse "O Norte é o Porto. O resto é paisagem". Note-se de seguida que Barreto diz claramente que os processos são consciente e voluntariamente destinados, não a apurar se é ou não verdade que alguns indivíduos feriram, com o seu comportamento criminoso, a honra de uma cidade que se orgulha do epíteto de "Sempre Leal", mas a fazer o Porto pagar a ousadia. O que não diz Barreto (neste tipo de cobardias há sempre algo de essencial que se esconde) é quem está por detrás da cabala.
Ajudemo-lo, então. Duas hipóteses se põem: A Justiça Portuguesa ou a Liga de Clubes. A Liga de Clubes tem nomes, tem rostos. Se esta hipótese é verdadeira, então devemos ver quem é responsável da LC. E basta, Leitor, vermos a constituição dos orgãos dirigentes da prestimosa instituição para tirarmos algumas conclusões. Comecemos pela Assembleia Geral da Liga. É constituida por quatro pessoas. Destas, três são do Porto e uma de Setubal. Das três que são do Porto, duas são arguidas no processo judicial e a outra, um funcionário do Tribunal onde correm os autos, é arguido num outro processo por difamação de um magistrado. Nem Barreto seria capaz de convencer-nos de que são estas impolutas criaturas que movem tão encarniçada perseguição. Será a Direcção, então. Vejamos: a Direcção da LC é constituida por um Presidente, de Oliveira de Azemeis, e doze clubes, entre efectivos e suplentes. Destes, cinco são do Porto, um de Aveiro, um de Vila Real, um de Braga. Os outros quatro são um de Leiria (arguido no processo), um de Setubal, um de Lisboa e um do Funchal. Nem Sousa Tavares seria capaz de nos explicar como é que estas sapientíssimas personagens embarcam em tão injusta cabala. Acrescentemos que a Liga tem ainda uma Directora Executiva, que é do Porto (aliás, irmã de dois ex-jogadores dos Dragões). Finalmente, a Comissão disciplinar. Dos cinco membros, todos juristas, que a constituem, pelo menos quatro estão, pessoal e profissionalmente, ligados ao Porto. Alguem acredita que são estes os homens de mão da besta do centralismo?
Segue-se que Barreto, ao afirmar o que afirmou, está a acusar a Justiça Portuguesa de ter perdido a sua independência para se bandear com os perigosíssimos centralizadores que querem esbulhar o Porto das inúmeras façanhas que a cidade faria, se a deixassem. Só não faz porque a não deixam. Ai, se a deixassem...
É esta a visão que Barreto tem da Justiça portuguesa. É esta a visão que tem Barreto da mui nobre Cidade do Porto. Se o não diz claramente, é porque lhe falta a coragem. Não se pode ter tudo.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Três notícias

O Bengalão esteve ausente durante algum tempo e, ao regressar a casa e pôr a escrita em dia, deparou-se com três notícias significativas:
O músico Bob Geldof afirmou que Angola era dirigida por criminosos. O Engenheiro Mira Amaral veio a terreiro dizer que esta afirmação era um disparate. Ora quem é o músico Bob Geldof? É um cantor de que O Bengalão não gosta por aí além, mas que se tem distinguido, nos últimos anos, pelo apoio que dá a causas humanitárias, um pouco por todo o mundo. O Engenheiro Mira Amaral quem é? É um ex-ministro que se distinguiu, há uns anos, por começar a receber da Caixa Geral de Depósitos, ou seja, de nós todos, uma reforma de 18000€ por mês, por lá ter trabalhado 2 anos, e que se veio somar à pensão que já lhe pagávamos por ele ter sido ministro e vagamente deputado. Na altura da concessão das pensões o Engenheiro Mira Amaral não sofria de doença crónica e ainda não tinha 65 anos. Podia, portanto, trabalhar. O Bengalão confessa que, se mais argumentos não houvesse, teria tendência a acreditar mais na palavra de Geldof, que aliás também ganha bem, com a pequeníssima diferença de que não é O Bengalão que lhe paga.
Mas há mais argumentos. Todas as organizações internacionais são unânimes em afirmar que o regime angolano é dos mais corruptos do mundo. Angola é o país africano com um crescimento mais alto (cerca de 15%) e, no entanto, todos os indicadores mostram que a saúde, a educação, a habitação, as infrastruturas mais necessárias à vida do ser humano normal, a água, os esgotos, estão ao nível dos mais pobres de África. A família Eduardo dos Santos acumulou, ao longo dos anos, uma fortuna incalculável que é hoje gerida por uma das filhas do presidente, cuja única qualidade na vida económica é ser filha de quem é. É esta gente que resolveu abrir um banco em Portugal. Todos os ditadores corruptos africanos têm feito o mesmo: apropriam-se do dinheiro do país e do que vão extorquindo às empresas estrangeiras que com eles negoceiam e colocam-no em segurança no estrangeiro, não vá o diabo tecê-las. Por outro lado, é mais barato, para canalizar o dinheiro da corrupção, dispôr de um banco no estrangeiro do que ter de pagar a intermediários. O principal accionista do novo banco é a moçoila de que atrás se falou. Não sendo capaz de gerir o banco, ou tendo mais que fazer, contratou um criado para o fazer por ela. O criado chama-se Engenheiro Mira Amaral e, como muitas vezes fazem os criados atentos, veneradores e obrigados, defendeu a patroa e, sejamos sérios, também o dinheirinho que ela lhe paga, que se acrescenta ao que nós lhe pagamos. A resposta do Engenheiro Mira Amaral não é uma resposta: é o bolsar de quem, com a carteira cheia e a ética flexível, não quer perder nenhum dos seus privilégios. Angola é dirigida por criminosos. Mas os criminosos têm cúmplices. Muitos deles na Europa, alguns em Portugal.
Entrevistado por um jornal português, o inefável António Borges, disse que o subprime é uma das maiores criações financeiras dos últimos anos. Sabes o que é o subprime, Leitor? Não é muito complicado. Os bancos americanos, que, como todos os bancos, precisam do nosso dinheiro como de pão para a boca, começaram a emprestar dinheiro para comprar casa própria, aceitando como garantia, não o valor actual da casa, mas o valor que ela iria ter no futuro. Quer dizer, o banco apostava na subida contínua do preço das casas e, além disso, apropriava-se de uma pequena margem de manobra que é fundamental para quem pede dinheiro emprestado: a possibilidade de ir subindo na vida, enquanto que o empréstimo, em termos reais, não sobe, e corresponde, assim, a uma parte proporcionalmente cada vez menor do rendimento da família. É evidente que o risco, para o banco era maior, mas os bancos resolveram isso de uma maneira, como direi, habilidosa: venderam uma parte das dívidas, por vezes muito bem escondidas por detrás de pacotes de investimento atraentes, partilhando assim o risco assumido com todo o mundo. Conheces, Leitor, o resultado disto: o mercado da habitação entrou em recessão e o sistema financeiro do mundo entrou em crise. Todos estamos a pagar isso. Mas os grandes bancos e os gestores de investimentos ganharam muito com a manobra. Houve dinheiro teu, Leitor, que nunca compraste um andar em Lisbon (no Dakota do Norte, EUA), nem em Faro (na Carolina do Norte, EUA), e nunca pediste dinheiro a um banco americano, que foi parar ao bolso do Senhor António Borges, que vive desses expedientes. Não surpreende, pois, que o Senhor António Borges considere os subprimes uma maravilhosa invenção. O que se percebe menos é que muitos o considerem como a última esperança do PSD. Ou julgarão que, se António Borges fosse Primeiro Ministro, isto ia ser um bodo aos pobres em subprimes?
O Senhor Vale de Azevedo é um burlão que foi condenado em vários tribunais, por crimes variados. Foi recorrendo até ao Supremo Tribunal de Justiça que, agora, o julgou definitivamente culpado no primeiro desses processos. O burlão foi condenado a sete anos de cadeia. Não os cumprirá, no entanto. Fugiu do país a tempo. Fugiu do país porque o Legislador que nos coube em sorte (se assim se pode dizer) organizou a Justiça de maneira que quem para isso tiver dinheiro pode protelar a decisão final por muitos anos, durante os quais, apesar de ter sido condenado por várias instâncias, é presumido inocente. Fugiu do país porque os Doutos e Meritíssimos Juízes não terão visto que havia um perigo real de fuga e, portanto não houveram po bem aplicar-lhe medidas de coacção. Fugiu do país porque a polícia não considerou necessário vigiá-lo discretamente. Não será preso, portanto. Nem os esbulhados por ele se verão ressarcidos. Se fosse só o Senhor Vale de Azevedo, ainda vá. Mas não é. E a Opinião Pública portuguesa resume a situação da seguinte maneira: quem tem dinheiro pode fazer o que quiser, sem ter de se importar com a Justiça. E isso é algo que põe em causa todo o desenvolvimento do país, mesmo com planos tecnológicos, muito investimento estrangeiro, e muita requalificação da mão de obra portuguesa. Mesmo que o Ingenhêro deixe de fumar.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Contabilista

O Bengalão assistiu, com toda a atenção, à prestação da Contabilista na RTP. O Bengalão, que já tinha ouvido a Senhora dizer que não fazia campanha eleitoral, como é aliás seu pleno direito, esperava que, entrevistada pela televisão, explicasse por que pensava que era melhor do que os outros candidatos para dirigir o PSD. Para isso, seria importante que esclarecesse o que a distinguia deles. Não para os insultar mas para nos dizer, a todos, os que são do PSD e os que não são que, da pluralidade de um partido democrático, é natural que surjam ideias, todas elas inteligentes, todas elas sérias, todas elas respeitáveis, mas todas diferentes umas das outras, sobre os objectivos a atingir e o caminho para lá chegar. Pensava O Bengalão que a Contabilista não quereria que alguém pensasse que ela e o Santana são precisamente o mesmo. O Bengalão enganou-se. A Contabilista, que não fará campanha, escusou-se também a explicar as diferenças. Não é a primeira vez que O Bengalão assiste a estes métodos de fazer política. Ainda há pouco o Sr. Medvedev, na altura candidato à presidência da Federação Russa, fez o mesmo. Nem debate, nem campanha. E ganhou, esmagando os concorrentes. Parece no entanto a O Bengalão que a perspectiva de ver o principal partido da oposição dirigido por uma Medvedeva, que ainda por cima não rejeita o apodo de dama de ferro não augura nada de bom para a democracia portuguesa.
A dificuldade em marcar diferenças foi ainda mais longe. Depois de muito instada pela jornalista a dizer o que a distinguia do Ingenhêro, a Contabilista lá conseguiu lembrar-se de uma "diferença" e balbuciou umas banalidades sobre a importância do Estado. Ora O Bengalão esperava ouvi-la dizer o que mudaria se a Contabilista fosse Primeira-Ministra. Se O Bengalão percebeu bem, a política educativa seria a mesma, a política de saúde a mesma seria, a política de ambiente continuaria, manter-se-ia a política externa, e a de defesa, e a de turismo, e o modelo de desenvolvimento, e o segredo bancário, e a carga fiscal, e o financiamento da investigação, e a habitação, e o ordenamento rural, e a autorização dos OGMs, e continuaria a haver a PSP e a GNR e o F.C. do Porto continuaria a ser campeão de futebol. Tudo na mesma. Com menos Estado, claro. Nisso, a Contabilista é formal e intransigente.

Ainda o acordo

Rosa Brava não está de acordo com O Bengalão. Ainda bem. Se toda a gente estivesse de acordo com O Bengalão, o mundo seria diferente, mas não seria melhor. Mas permita-se a O Bengalão uma palavrinha. É um erro pensar que, se se escrever de forma diferente, de forma diferente se falará. Se se acabasse com os acentos, por exemplo, não se passaria a pronunciar as esdrúxulas como se fossem graves. O facto de eu escrever tenhamos, sem acento, não impede que muita gente diga "tênhamos". O Bengalão acha que se podia perfeitamente utilizar o alfabeto cirílico para escrever Português, sem acentos (na realidade há um acento no alfabeto cirílico, para distinguir o й do и) mas não serve para a mesma coisa. E não é fácil defendermos que este acordo apenas serve os brasileiros. Em Portugal e no Brasil sempre se escreveu da mesma forma até que um Parlamento particularmente ignorante resolveu, em 1911, impôr uma ortografia por decreto. A O Bengalão parece que é melhor que se escreva a mesma língua da mesma maneira, aceitando uma ou outra variante que mostre mais plasticamente variantes dialectais. Se algúem tem de ceder mais na negociação, é lógico que seja quem deu início ao problema. Resta que alguns editores portugueses, não todos, felizmente, têm da concorrência e do risco o mesmo medo que a generalidade dos empresários portugueses. Querem que a sua quintinha, pobre mas honesta, seja protegida do monstro brasileiro. Não nos dizem quanto tempo demorará, se não houver acordo, até que os outros países lusófonos adopem a ortografia brasileira, do Brasil que os trata melhor, que lhes manda mais livros, quase sempre mais professores, mais e melhores programas de televisão, muitíssimo mais programas de computador, expulsando assim os editorzitos portugueses dos seus mercados e pondo-os a mendigar um acordo ortográfico, quando for demasiado tarde? O Bengalão repete que há bons editores em Portugal. O Bengalão confessa que comete de vez em quando o seu sonetozito e que tem um editor que o trata muito bem. O Bengalão não faz a mínima ideia do que ele pensa do acordo, mas tem a certeza de que tem uma opinião inteligente e medo nenhum.

O mais importante, no entanto, é que O Bengalão, como faz sempre que lhe comentam os posts, foi ver a página da Rosa Brava e gostou do que viu. Tem pena que ela tenha decidido deixar de a manter, mas quem é O Bengalão para sobre isso dizer seja o que fôr? Leitor, vai aqui . Vais ver que gostas.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Género

Escreve João Paulo Guerra, no Diário Económico: "Para além do género e do penteado, a única essencial diferença entre José Sócrates e Manuela Ferreira Leite é que um está no poder e a outra esteve".




O Bengalão sabe que JPG, na altura gloriosa do Tempo Zip, não era economista. Mas a economia é maleita contagiosa, um pouco como a poesia, de que Cervantes dizia "soy poeta, que es enfermedad pegadiza". E, assim sendo, JPG é, para todos os efeitos práticos, um economista. O Bengalão protege-se sempre, quando lê JPG, como se deve fazer para evitar contágios. Vinda de quem vem, a prosa de JPG suscita algum espanto e três comentários. O espanto vem do facto de um economista falar de uma diferença essencial. Pois quê? Então os economistas abandonaram a cavacal secura da sua posição hierática para se dedicarem agora à percepção de algo tão volátil como uma essência? Pois não lhes basta já aquilo que, com a subtileza de um rolo compressor, conseguem reduzir à plana beatitude dos números unidimensionais? Essencial, JPG? Que bicho te mordeu, JPG? Estaremos, como diria o Ingenhêro se alguma vez tivesse lido Eduardo Lourenço, perante uma mudança de paradigma? Um economista é um ingénuo que pensa que a economia é uma ciência exacta e que a matemática é outra coisa que uma linguagem. Acham que a matemática é uma mantra que permite achar a verdade. Um economista é um bufarinheiro que dá, de uma passadeira rolante, a seguinte definição: Seja No a cota de partida de uma escada rolante ascendente e N1 a sua cota de chegada. Seja X=N1-N0. Uma passadeira rolante é uma escada rolante ascendente tal que X=0. Essencial, JPG?




Para além do grão espanto, O Bengalão tem três comentários a fazer. O primeiro é que lhe parece abusivo dizer que a juntar à diferença "essencial" que JPG julga ver, haja uma diferença de penteado. O penteado do Ingenhêro e o da Contabilista não são muito diferentes. A O Bengalão parecem até quase idênticos. O Bengalão sabe que há, na cabeça da Contabilista, mais volume do que na do Ingenhêro. Mas os dois penteados são, como direi, essencialmente iguais. O topete da pita gótica que arvora a pluma vertical e negra do cabelo com o mesmo desplante com que exibe o pin no lábio é essencialmente diferente do betão armado do penteado da Dra. Manuela Eanes. O cabelo rapado da enfermeira do Instituto de Oncologia que sente a necessidade visceral de se parecer com os seus doentes é humana e essencialmente diferente do capachinho do Dr. Fernando Gomes. Agora o Ingenhêro e a Contabilista? (Intervalo. Há muitos anos, O Bengalão costumava contar às suas filhas histórias que ia inventando à medida que as contava, mas que começavam sempre por: "Era uma vez um urso e uma tirolesa". O Bengalão promete que há-de contar aos seus netos histórias por medida e que comecem por "Era uma vez um Ingenhêro e uma Contabilista". Ouviram, meninas? Ao trabalho, que se faz tarde!). Penteados diferentes, os do Ingenhêro e o da Contabilista? Ai, JPG, JPG...




O segundo comentário tem a ver com a conclusão, muito portuguesa, de JPG. Para JPG e, sejamos justos, para a maioria dos Portugueses, o poder é um lugar, quase um logo, em que se está. O Governo, o Parlamento e outros orgãos da República deviam estar, não em Lisboa, mas numa lindíssima aldeia perto de Coimbra que se chama Logo de Deus. E perguntar-se-ia assim: Onde está o Ingenhêro? Está no poder. Ou seja, no Logo de Deus. Mas o poder não é um lugar. O poder tem-se. A Contabilista tem poder. O Ingenhêro também. Têm pouco, mas têm. Nenhum deles tem tanto como o Tio Belmiro. E nunca teve. O Durão não tem poder nenhum. O Santana nunca teve. O Pinto da Costa tem mais poder do que o Rui Rio. O pensador Marcello julga que tem poder. O Cardeal Patriarca também. Estar no poder, JPG?


O terceiro comentário é sobre aquilo a que JPG chama a diferença de género entre o Ingenhêro e a Contabilista. Claro que JPG estudou o livro de estilo do politicamente correcto e sabe que é género que se diz, não é sexo. Mas O Bengalão, que não tem que respeitar essas regras espúrias, permite-se algumas observações sensatas. Queiram ou não queiram os Grandes Inspectores (e Grandes Inspectoras, claro) da correcção política, o Ingenhêro e a Contabilista são de sexos diferentes. Se são de géneros distintos ou não está sujeito a discussão. Antes que se pense que O Bengalão é um machista inveterado, que não entende a subtileza da distinção entre género e sexo, declara desde já O Bengalão que tem lido os seus Autores, percebe bem a diferença e está de acordo com a necessidade de designar de maneira desigual o sexo biológico e o sexo social. O Bengalão leu o Deuxième Sexe, e acha que essa distinção, aí inaugurada (em 1949!!!), é um avanço muito importante na civilização humana. O problema não é esse. Trata-se apenas de um problema de designação. Na sequência do conceito de Simone de Beauvoir, sociólogas e feministas americanas propuseram, para traduzi-lo, a palavra inglesa gender. A palavra gender, para um anglófono, é uma boa escolha. Em Inglês, gender significava, antes do fim da década de 1950, quando, pela primeira vez, a palavra foi usada para traduzir o conceito beauvoiriano, duas coisas: tipo e, mais restritivamente, o que, em Português, se designa por género gramatical. O Bengalão, que não perde uma oportunidade de mostrar os seus conhecimentos (La culture est comme la confiture: moins on en a, plus on l'étale), acrescenta que gender já significou sexo, tendo sido ainda usada, até ao princípio do século XX, nesse sentido, em tom irónico, e, até ao século XVII, significava mesmo prole. Ora, com o uso de gender, expurgava-se o conceito de conotações biológicas, ilustrando a diferença em relação a sex, usando um termo muito abrangente e, portanto, neutro e, além disso, acentuava-se o carácter convencional (como são todos os conceitos gramaticais), ou seja, não natural, da designação. É evidente, para quem não seja Licenciado pela Universidade Independente, que a escolha é boa em Inglês, e em qualquer língua que cumpra duas condições: primeiro, que tenha dois géneros totalmente, ou quase totalmente, coincidentes com os sexos; segundo, que a palavra que designa o que em Inglês se chama gender, não tenha outros significados que prejudiquem a adequação ao conceito. Quanto à primeira condição, o Inglês cumpre-a quase perfeitamente. Tem três géneros, o neutro para quase tudo e o masculino e o feminino, paralelos, com algumas notáveis excepções (navios e países, por exemplo, que são ambos femininos), aos dois sexos tradicionais (O Bengalão diz tradicionais para se precaver de alguma reacção menos gandhiana de algumas pessoas). Quanto à segunda, o cumprimento é evidente.
O problema é que há poucas línguas que tenham a mesma distribuição de géneros do Inglês. O Bengalão não conhece nenhuma. Em Português, se é verdade que o sexo feminino é do género feminino e o masculino do masculino, é também verdade que a ausência do género neutro (pelo menos nos substantivos, diz O Bengalão, que é um snob, quando fala de gramática) impede o paralelismo entre género e sexo. Em Alemão, que tem neutro, uma das palavras que quer dizer mulher é neutra, mesa é masculino e quadro feminino. Em Finlandês não há género (O Bengalão não tem experiência pessoal que lhe garanta que há sexo, mas deve haver) e, nalgumas línguas bantu, há vinte géneros, nenhum dos quais tem a ver com sexo. A segunda condição é ainda mais problemática. A palavra género, em Português, além de significar o que gender quer hoje dizer em Inglês, significa também o que em Inglês se designa por genus, ou seja, o taxon que, hierarquicamente, está acima da espécie. Diz-se assim que a espécie Rosa foetida (existe mesmo e cheira mesmo mal) pertence à secção pimpinellifoliae do subgénero eurosa do género rosa. Em Português, assim, a palavra género não serve para traduzir o conceito que aqui está em causa. O Bengalão espera que as feministas portuguesas imaginem a palavra certa. Seria pena que as mulheres, que, durante milénios foram tratadas como se pertencessem a uma espécie diferente da dos homens, defendessem agora que nem ao mesmo género pertencem.

sábado, 26 de abril de 2008

Cravos

Confessa O Bengalão que nunca percebeu muito bem o que é que o CDS e o PSD têm contra os cravos. Na sessão solene da Assembleia da República, para comemorar o 25 de Abril, os deputados do PS, do PCP (incluindo Os Verdes) e do BE lá estavam de cravo ao peito. Os do CDS e do PSD não tinham cravo. O Presidente da AR, sempre atento às finuras institucionais, veio receber o Presidente da República sem cravo e pô-lo quando entrou no Hemiciclo. Os cravos que, no mundo todo, simbolizam a revolução democrática portuguesa são, em Portugal, conotados com aquilo a que, por comodidade, ainda se chama a esquerda. O Bengalão teve a oportunidade de estar, há alguns anos, no Chile, no dia 25 de Abril. De manhã, levantou-se e foi comprar um ramo de cravos vermelhos. Todos os participantes da conferência em que estava O Bengalão, nenhum dos quais era português, reconheceram o símbolo, pediram um cravo e deram os parabéns a O Bengalão. E havia gente de todos os quadrantes políticos. Por que será, então que, em Portugal, os cravos são considerados, pela Direita, um símbolo de Esquerda? O Bengalão percebe que a Direita não tenha gostado de tudo o que se passou depois do 25 de Abril. Mas que recuse a revolução em si, a que instaurou a democracia, essa, não se percebe. Afinal, sem o 25 de Abril, a maioria dos deputados do PSD e do CDS estariam hoje a viver a apagadíssima tristeza a que os condena a sua gritante mediocridade. Seriam caixeiros viajantes, informadores da PIDE, empregadotes mais ou menos funcionalizados, ou qualquer das coisas que as pessoas eram quando não havia eleições. Alguns nem ricos seriam, se não fosse o 25 de Abril.
A Madeira, mais uma vez, vestiu-se de Rei Momo para ir mais longe ainda. Na Madeira, por decisão do Soba, não houve comemorações oficiais. Esquecerão os madeirenses, mais ilhéus do que os cubanos, que, sem o 25 de Abril, autonomia viste-a, o Jardim estaria ainda a escrever na imprensa local louvaminhas bajulatórias ao ditador que estivesse no poder, o Ramos a vender sanitas, os corajosíssimos independentistas a dar vivas a Portugal Eterno, e os dignatários do PSD a terem de fazer contas à vida para pagar a renda de casa.
De onde vem, então, esta alergia aos cravos? O cravo é uma flor bonita e, quando é vermelho, tem as cores da bandeira nacional. Tem tudo, assim, para ser consensual. Por que não é, então?
Os ensinamentos vêm de onde menos se espera. Pois não é, Leitor, que foi a demissão do Luís Filipe que abriu a O Bengalão as portas de Damasco? (Aconselham-se os Licenciados pela Universidade Independente a irem ver à Wickipédia o verbete "S. Paulo". Deve lá estar. Se não encontrarem, peçam à vossa mulher a dias ucraniana que vos explique. Ela sabe.)
A RTP resolveu convidar uma pequeníssima parte dos candidatos aos sapatos do Luís Filipe para debaterem o momentoso tema do futuro do PSD. Durante o debate, houve algo em que todos estiveram de acordo. Quando fôr Governo, o PSD fará exactamente o que está a fazer o PS mas, ao contrário deste, fá-lo-á bem. Entendeste bem, Leitor. Disse-o o Ângelo, disseram-no todos: o problema do País não é o que o PS está a fazer, não, o PSD faria o mesmo. O problema é que o PS o faz mal. E o PSD, quando estiver no Governo, fá-lo-á bem, nem que seja o Santana a ganhar as eleições. O Bengalão abstem-se de comentar esta assunção. Dirá apenas que a fé move montanhas. E que é precisa muitíssima fé para acreditar que o Santana fará seja o que fôr bem.
Quando O Bengalão ouviu isto, de repente fez-se luz. E lembrou-se O Bengalão de já ouviu isto muitas vezes. Queres exemplos, Leitor? A descolonização, por exemplo. A Direita nunca diz que é contra a descolonização. Não. Mas não a faria assim. Como a faria não diz. Mas não a faria assim. O aborto, para mudar de tema. A Direita diz que não faria a lei da despenalização assim. Só não diz que pena tremenda, que castigo inaudito aplicaria à mulher que abortasse. A Constituição. A Direita não faria a Constituição assim. Que Constituição faria a Direita, não diz. Mas assim não.
Sobre a Democracia, a Direita pensa exactamente o mesmo. Se fosse a Direita a fazer a Revolução, não a faria assim. Como a faria, não se sabe. Mas, porque a não faria assim, recusa-lhe o símbolo mais inocente.
Ora talvez fosse bom que o PSD aproveitasse para eleger um leader que, por uma vez, nos explicasse o que faria, se... Nem que para isso tivessem de escolher para símbolo da Revolução que ele faria outra flor qualquer. O Bengalão propõe-lhe a flor do cardo. Quando o Santana perdesse as eleições, sempre podiam fazer queijo da serra.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Accordo orthographico

Há mais de dez annos, Portugal rubricou um accordo orthographico com outros paízes de lingoa portugueza. Parece que agora muyta gente que andava distraída despertou e vem dizer que he contra o accordo. O Bengalão confessa que ouviu argumentos surpreendentes. Um conceituado escriptor da nossa praça diz, por exemplo, que milhares de livros vão ficar desactualizados nas nossas bybliotecas. Ora O Bengalão, que possue alguns livros anteriores ao accordo de 1945 e continua a le-los, que possue mesmo um ou outro livro anterior à reforma orthographica unilateral de 1911 e lhes deita, de quando em vez, um olhar enternecido, O Bengalão, cuja byblioteca em alemão data, quasi toda, de antes da reforma orthographica, sem que O Bengalão deixe de ler o seu Mann e o seu Kunnert, confessa não compreender a objecção. A orthographia não he mais que uma convenção. O Bengalão, que he fino, he capaz de viver com mais de uma convenção ao mesmo tempo. Vae escrever, como he claro, como o Governo da Reppublica lhe mandar e a sua memoria lhe permitir. Mas não lhe parece difficil ler com mais de um conjunto de regras. Não colhe, portanto, o argumento.
He claro que O Bengalão compreende que se possa ser contra o accordo por principio. Ser contra todos os accordos. Puxar da pistola assim que se ouve falar de accordo. He por isso que O Bengalão, por solidariedade com estes homens de principios, escreveu assim este texto. Como se a reforma orthographica de 1911 não tivesse existido. E divertiu-se.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Coitadito

O Bengalão ouve sempre com atenção os mais velhos. Os Mais-Velhos, um pouco por já não terem nada a perder e muito por já não terem nada a ganhar, falam com uma franqueza de que os mais novos raramente são capazes. No outro dia, o Dr. Mário Soares, num debate sobre a situação e o futuro da União Europeia, disse uma coisa com que O Bengalão está perfeitamente de acordo: o principal problema da Europa é não ter políticos carismáticos, capazes de fazer os cidadãos partilharem de um sonho. Interrogado sobre se não havia nem um que se aproveitasse, disse: "Claro que há, um ou outro, há a Merkl, e o Zapatero, claro, e o próprio Sócrates faz o que pode..." Assim mesmo, sem tirar nem pôr. Só lhe faltou pôr no fim uma vírgula e acrescentar: coitadito. Assim: "... o próprio Sócrates faz o que pode, coitadito". E ainda dizem que O Bengalão fala mal do Ingenhêro, coitadito.

domingo, 13 de abril de 2008

O Senhor Silva vai à Madeira

O Bengalão não nutre grande simpatia pelo Senhor Professor Cavaco Silva. Nem sequer partilha do embasbacamento português por um filho de um gasolineiro ter chegado a um diploma de um politécnico inglês que, por via de um sistema de equivalência discutível, se designa por doutoramento. Mas O Bengalão sabe que o Presidente da República não se esgota na figura do Senhor Professor Cavaco Silva. Tem um carácter institucional que O Bengalão, democrata convicto, respeita.
Há anos, antes da eleição presidencial, o Jardim deu mais um ar da sua graça ao referir-se ao seu colega de partido como "Senhor Silva". O Bengalão acha que, para além da evidente falta de gosto do distinto lider da Madeira, nada de especial há nisto. Compreende-se o que o prócere da Ilha quer dizer: ao referir-se ao seu colega como "Senhor Silva", queria ele diminui-lo, reduzi-lo a um nome comum e negar-lhe o direito à identidade própria, tirando-lhe o nome mais definidor. Aliás, está agora a fazer o mesmo com o Ingenhêro, ao tratá-lo por Pinto de Sousa. O Jardim está a perder qualidades.
Mas a vida dá muitas voltas, como diria a Margarida Rebelo Pinto. O Senhor Presidente da República vai, em visita oficial, à Madeira. Durante a visita à região, não irá ao Parlamento Regional. Quer dizer, deslocando-se o Senhor Presidente da República à Região Autónoma da Madeira, não visitará a sede máxima do poder regional. O Jardim acha bem. E trata os deputados regionais de loucos. A Presidência da República diz que o convite que lhe foi dirigido pelo Presidente do Parlamento Regional era para jantar.
Isto quer dizer várias coisas: que, convidado oficialmente para jantar, o PR não achou que, aproveitando a sua presença na Região, valesse a pena visitar o Parlamento; que, sabendo que o Jardim ofendeu os deputados, tratando-os, em público, de loucos, o PR não achou seu dever defender a honra dos eleitos, indo ao Parlamento; que, tendo ouvido os dislates do Jardim, o PR não achou que a sua dignidade, que é a nossa dignidade, o impedisse de ir à Madeira jantar com ele.
O Jardim tem razão: quem vai à Madeira é o Senhor Silva.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Jeito para línguas

Havia em Coimbra, no tempo em que O Bengalão por lá andou, um homem que foi um autêntico percursor dos guias turísticos. Era o Sébié. O Sébié, numa altura em que a maioria dos que nos visitavam eram franceses, e os outros passavam a sê-lo, que remédio, procurava os grupos de turistas, apontava para um monumento e, carregando nos EE, debitava: Univérsité, Sé Bié (O Bengalão não sabe como ele se referia à Sé Nova). O Bengalão espera que tu, Leitor, aprecies devidamente o tacto com que te informou de que Sé Bié queria dizer Sé Velha. Vem isto a propósito de um dos mitos mais arreigados na culpura portuguesa, o mito de que temos jeito para línguas. Nós, que só temos fronteira com a Espanha, a famosa raia que a parta, vemos os Espanhóis, que acham que o centro do mundo é Madrid e, por isso, não estão para falar outras línguas e convencemo-nos de que somos uns génios, uma espécie de finlandeses que falam todos outra língua porque ninguém compreende a deles. A verdade é que os portugueses têm um certo jeito para imitar sons e, portanto, conseguem dar uma impressão quase convincente, quando os ouvimos de longe e sem muita atenção, de que falam bem seja o que fôr. Mas, salvo as honrosas excepções do costume, está longe de ser verdade. O caso mais flagrante, nos dias de hoje, é o do Inglês. Qualquer bicho careta, munido do canudo da Licenciatura pela Universidade Independente, balbucia meia dúzia de inanidades monossilábicas e entarameladas, entremeadas com uma ou duas palavras mais compridas que aprendeu no Finantial Times (eles dizem FT, e nós quase os vemos a piscarem o olho numa familiaridade intolerável) e julga que está a falar Inglês. Quando é ministro e vai a Bruxelas às reuniões do Conselho, encontra-se com outros cromos, todos a dizerem yes, yes, e vem de lá convencido de que é um estadista de craveira internacional (é assim que eles falam, são todos de craveira).



Mas o caso mais grave está longe de ser o Inglês. Há em Portugal quem saiba Inglês. Ninguém estranha se um jovem, mesmo dos mais velhos, disser que vai para o British Council aprender Inglês. E, se muita gente que julga que sabe Inglês se limita a parecer ainda mais ignorante quando tenta mostrar as suas habilidades do que já é em vernáculo, a verdade é que há muita e boa gente que conhece a língua de Marlowe (por que é que há-de ser sempre a língua de Shakespeare?). O caso mais grave é mesmo o do Espanhol. É uma das línguas mais faladas do mundo, é a língua do país com que temos mais relações comerciais e, no entanto, muito poucas pessoas em Portugal a conhecem razoavelmente. Todos os Portugueses pensam que sabem Espanhol. Na Beira, há uma canção popular que parece ter sido feita para Mário Soares e outros extraordinários hispanohablantes da nossa praça, e que diz o seguinte:




Entrei pela Espanha adentro


Ai, a cavalo num burrito


E os Espanhóis me disseram


Ai que cavaleiro tão bonito



Vá de binga, binga, binga, binga,


Vá de binga, binga, binga, binga,


Já sei falar à espanhola, olé y usted


y olé




Vem este momento de poesia a propósito de uma coisa que O Bengalão ouviu hoje no Telejornal. Estavam a dizer que o Presidente do Governo espanhol, nas Cortes, tinha prometido maior severidade na luta contra a violência doméstica, e mostraram o Zapatero, com legendas e tudo, a dizer o seguinte: "Qualquer cobarde que ouse levantar a mão para uma mulher deve saber que tem diante de si, não uma vítima indefesa, mas 40 milhões de cidadãos prontos a..." E aqui é que a porca torceu o rabo. O que o Zapatero disse foi "...plantearles cara", ou seja, "a enfrentá-los". O que o tradutor escreveu foi "...partir-lhes a cara". Ou seja, porque não sabe Espanhol, o distinto escrevinhador não percebeu. Porque não é tradutor, não se deu conta de que o Presidente do Governo espanhol, numa sessão das Cortes, não ameaça ninguém de lhe ir às fuças. Porque não é honesto, inventou.




Não se pense que é caso único. As traduções literárias que, em Portugal, vão do muito bom (raro, mas existente) ao muito mau, sem passar pelo razoável, são particularmente más no caso do Espanhol. A grande maioria dos portugueses, no tempo em que estava mais na moda do que hoje a novela hispânica sul-americana, nunca leram Garcia Marquez ou Vargas Llosa. Leram sucedâneos canhestros, mal alinhavados e postos em língua de trapos pelos primos, amigos, amantes ou outra coisa qualquer de editores quase tão ignorantes como eles, que tinham ido duas vezes a Badajoz e, Ai que cavaleiro tão bonito, já sabiam falar à espanhola.
E é confrangedor, de cada vez que a RTP manda um enviado especial a Espanha, ou um repórter entrevistar um ciclista da Volta a Portugal, ver aqueles néscios a aproveitar cada cheirinho de S para falarem como se fossem belfos (ou seja, como se fosse um Z espanhol) e pensarem que estão a fazer uma grande figura.
Porque é que a RTP, que é nossa, não faz duas coisas muito simples: em primeiro lugar, contratar tradutores para fazerem traduções e, em segundo, dar formação profissional aos seus fncionários, inscrevendo alguns deles num curso de língua e cultura espanhola? O Instituto Cervantes é excelente e não é caro. E escusavam de andar a fazer triste figura em casa dos vizinhos.

Ainda o divórcio

Alguns amigos d'O Bengalão acharam que este tinha ido longe demais ao criticar o direito da Igreja Católica se meter na discussão do divórcio. O Bengalão acha que não se fez entender. A Igreja Católica tem todo o direito de dizer o que pensa da Família, do Casamento e do Divórcio (o Senhor Cardeal que me perdoe a terceira maiúscula). Mas a Igreja, que não reconhece o casamento civil, não tem o mínimo direito de se meter na sua dissolução. É ou não verdade que, para a Igreja, O Bengalão, civilmente casado há muitos e bons anos, vive (e só um católico é capaz de inventar uma palavra tão carregada de culpa) amancebado com a mulher que ama? Então que importa à Igreja que se separem, ou que o Estado reconheça a separação? Das duas uma, ou a Igreja reconhece o casamento civil, e não o faz, ou, para a Igreja, o divórcio de alguém civilmente casado pura e simplesmente não existe, porque se não pode dissolver o que não existe. Ninguém propõe que se dissolva civilmente o casamento religioso. Se alguém casar pela Igreja, esta tem todo o direito de considerar que só a morte os separa e, portanto, de não lhes conceder a separação. O problema da Igreja é a falta de fé. A Igreja ameaça os crentes com a cólera divina e com o castigo dos céus. Mas não acredita nem numa nem noutro. E prefere, enquanto espera pelo divino trovão, e à cautela, não vá o Senhor adormecer, ir adiantando já, e por conta, um infernozinho terreal e civil. A Igreja não consegue convencer os seus (in)fiéis das consequências terríveis da excomunhão e, por, isso, pede ajuda aos esbirros do príncipe. É disto que O Bengalão acusa a Igreja, não pretende cortar-lhe a palavra. Aliás, O Bengalão sempre considerou fascinante que alguns senhores que recusam cumprir o primeiro (por ordem cronológica) dos Mandamentos (Crescei e multiplicai-vos) lhe venham dar lições sobre a Família, a educação dos Filhos e a gestão da sua vida sexual. E não quer deixar de se divertir a ouvir as Reverendíssimas Criaturas.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Independência para a Madeira, já!

O Bengalão leu no jornal uma declaração, que se pretendeu bombástica, do Senhor Rui Alves. Sabes, Leitor, quem é o Senhor Rui Alves? Pois é um pobre diabo, presidente de um clube desportivo, daqueles muitos para quem o Jardim canaliza o nosso dinheiro, para eles fazerem equipas profissionais de todos os desportos possíveis e imagináveis, todos eles absolutamente dependentes dos nossos impostos para conseguirem títulos ad majorem Jardinis gloriam. O Senhor Rui Alves declarou então que não gostava da Língua Portuguesa, nem da Cultura Portuguesa, que era a favor da independência da Madeira e que, lá mais para o Verão, ia viver para o estrangeiro. Nota, Leitor, que o Senhor Rui Alves não nos fez parte da língua que acha que devia ser oficial na futura República Popular da Madeira, mas O Bengalão acha que deve ser o Inglês. Esta gentinha acha sempre que sabe falar Inglês. Nota ainda, Leitor, a extraordinária coragem do Senhor Rui Alves. Ele acha que a Madeira, que é a terra dele, deve ser independente, e portanto, resolve ir para o estrangeiro. O Bengalão, na altura em que defendia a independência dos Montes Hermínios, ao menos, teve a coragem e o bom gosto discutível de fundar a Frente de Libertação da Egitânia, giroFLE, FLE, fla.



Perguntarás, Leitor, porque está O Bengalão a gastar cera com tão ruim defunto. O que temos nós com estes cromos que, de cinco em cinco anos, vêm falar da independência da Madeira? O que O Bengalão acha é que já não tem paciência para ouvir o Jardim e alguns caixeiros viajantes tornados ricos pelos chorudíssimos contratos celebrados com o PSD local, a que aliás pertencem, e pagos com o nosso rico dinheirinho falarem, de cada vez que alguém ousa dizer que talvez já fosse tempo de a Madeira, em vez de continuar a viver à nossa custa, começar, já que é a segunda região mais rica do país, a colaborar com o esforço de solidariedade com o Alentejo, o Nordeste ou o Vale do Ave, da independência da Ilha como se isso fosse uma ameaça que nos deixa transidos de medo. E começam logo a falar do colonialismo, e do sistema de colonia, como se uma coisa tivesse alguma coisa a ver com a outra. Sabes o que é a colonia, Leitor? Actualmente, é uma arma de arremesso que o Jardim utiliza, gabando-se de ter acabado com ela, com o descaramento dos mentirosos compulsivos. A colonia era um sistema medieval de exploração dos camponeses madeirenses pelas grandes famílias madeirenses (e não pelos cubanos), que foi extinto em 1977 pela Constituição da República e pela Lei de bases da Reforma Agrária, ou seja, pelo Parlamento Nacional, e não pelo Jardim.
O Bengalão está farto. E acredita que não é o único. E acha que chegou o momento da autodeterminação. De uma vez por todas. O Bengalão não quer impôr a cidadania portuguesa a ninguém. O Bengalão, que tem orgulho de ser português (O Bengalão sabe que o Ingenhêro, o Paulinho das Feiras, o Luís Filipe, o próprio Cochise, ou Geronimo, ou lá como se chama o índio, são efémeros, são fenómenos passageiros), acha que só deve ser português quem quer. E, assim, propõe um referendo de autodeterminação. Que se pergunte aos portugueses (do Continente, claro) se querem a independência da Madeira. E se, como espero, a independência ganhar, que os deixemos no meio das suas flores e da zona franca, responsáveis pelas suas contas. E, já agora, para evitar que o Rui Alves, que quer ir para o estrangeiro, se lembre de continuar a vir passear a sua insolência por Lisboa, que se exija o visto aos cidadãos do nóvel país que quiserem entrar na nossa terra, de cuja língua não gostam, cuja cultura não respeitam, mas que continua a pagar-lhe as contas.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Divórcio litigioso

Resolveram alguns Deputados apresentar propostas no sentido de facilitar o divórcio aos portugueses. A situação actual é bem conhecida. Quando uma pessoa casada pretende pôr fim à relação matrimonial, tem hoje duas soluções: ou obtém o consentimento do cônjuge, e ver-se-á divorciada em breve prazo e a custo razoável; ou não o obtém, e terá, para se divorciar, de provar que a culpa da situação é do cônjuge e de pagar muito, em tempo e em dinheiro, para se divorciar.
Esta situação é duplamente injusta. Por um lado, prolonga desnecessariamente situações de conflito que são dolorosas, e, por outro, protegem os fortes. Quer dizer, num casal em que um dos cônjuges tenha rendimentos próprios e o outro não, ou se houver uma diferença muito sensível entre os dois, o mais rico pode, e muitas vezes fá-lo, prolongar quase indefinidamente os processos, tornando a vida do outro num inferno.
O Bengalão não conhece os projectos em discussão. Não sabe, assim, se alguns problemas são correctamente tratados. Mas sabe que, em princípio, o objectivo deles é justo e corresponde a uma prática social que tem feito com que o casamento já não seja a única maneira de constituir uma família e seja mesmo cada vez menos o acto constitutivo de uma família. Cada vez há mais pessoas que não consideram que o casamento seja uma condição prévia para duas pessoas iniciarem uma vida em comum. Cada vez menos pessoas consideram, assim, o casamento como acto fundador e sagrado.
O Bengalão tem a sua opinião. Mas trata-se de uma questão que é do domínio privado de cada um. A opinião d'O Bengalão não tem qualquer interesse, a não ser para si próprio e para a pessoa com quem partilha, e tem toda a intenção de continuar a partilhar a sua vida. Não tem interesse a opinião d'O Bengalão nem a de ninguém. Que o Estado deve proteger e salvaguardar o direito de alguns cidadãos, que acreditam que o casamento é sagrado, de celebrarem o matrimónio de acordo com essa crença é uma evidência. Que o Estado, ou seja quem fôr, tenha o direito de definir as condições da dignidade do casamento seria um desvio intolerável.
Ora a Igreja Católica entendeu pronunciar-se sobre o assunto. Tem a Igreja o direito de se pronunciar? Claro que sim. Desde que aceite as condições que governam a convivência num Estado de Direito. Ou seja, que a Igreja Católica aceite que deve, e pode, informar os seus fiéis das condições em que considera que eles podem casar ou separar-se. Se a Igreja Católica acha que os noivos, para casarem devem fazer o pino diante da Sé de Lisboa, pode e deve dizê-lo. Se a Igreja Católica acha que, para um casal se separar é necessário que um dos cônjuges seja Príncipe do Mónaco, pode e deve dizê-lo. O que a Igreja Católica não pode, nem deve, é tentar fazer com que o Estado consagre na Lei as crenças do Senhor Ratzinger. Para os Católicos, as crenças deste estimável Senhor são a Verdade com letra grande. Para O Bengalão, e para o Estado laico, as crenças do Senhor Ratzinger são do domínio estritamente privado.
Mas a Igreja Católica não aprende. Mesmo depois de séculos a tentar que toda a gente pense como ela, com resultados que, felizmente, estão longe de ser muito bons, ainda não aprendeu.
Ora meta-se a Igreja Católica na sua vida e deixe o governo da vida comum de todos os cidadãos a quem estes decidirem. Continue a Igreja a dizer aos seus membros as suas regras, mas deixe os outros cidadãos em paz. O Bengalão está farto de quem, em nome da iluminação divina pretende que a sua Ética é superior à ética d'O Bengalão, que os seus Princípios são superiores aos princípios d'O Bengalão, que a sua Moral é superior à moral d'O Bengalão.
E, por uma vez que o Ingenhêro assina um projecto de jeito, se é que o projecto é dele, deixe o homem trabalhar.

domingo, 30 de março de 2008

Quadro de Mobilidade

Os factos são claros: Vai ser criado um Quadro de mobilidade especial para Professores. Quer dizer, os Professores que, por motivos de saúde, não possam exercer funções docentes, sem estarem incapacitados para o trabalho, serão colocados num quadro especial e convidados a procurar encontrar outra possibilidade de trabalharem e justificarem, assim, o vencimento que continuam a receber. Como é natural, os Sindicatos de Professores protestaram.
Entendamo-nos, Leitor. Quando O Bengalão diz "como é natural", não quer de modo algum dizer que está de acordo com a opinião dos Sindicatos. O Bengalão acha perfeitamente normal que um Professor que, por razões de saúde, não possa ensinar, apesar de poder exercer outras funções, as exerça, desde que elas estejam de acordo com a sua formação e capacidades e que correspondam ao mesmo nível de responsabilidades que as de um Professor. De facto, não vê O Bengalão por que há-de continuar a pagar a um seu funcionário, apto para trabalhar mas inapto para exercer determinadas funções, desde que lhe ofereça a possibilidade de, sem se afastar muito do seu lugar de titularização, como defendem as convenções da OIT de que Portugal é signatário, usar e desenvolver as suas capacidades e conhecimentos, e manter o mesmo nível de responsabilidade.
O Bengalão acha que é natural que os Sindicatos protestem, porque os Sindicatos defendem interesses sectoriais, não defendem os interesses da generalidade dos cidadãos. O Bengalão, que, para além dos interesses dos Professores, vê também os interesses de quem lhes paga, tem uma opinião diferente.
Claro que, às vezes, numa negociação laboral, uma das partes oferece à outra algumas condições especiais, para a compensar de aspectos particularmente duros da sua profissão. É o que acontece, por exemplo, com os Deputados. As condições de trabalho dos Deputados são negociadas entre o legislador e o trabalhador. Isto é, entre o Deputado e o Deputado. Para compensar o Deputado das condições particularmente duras do trabalho do Deputado, o Deputado oferece ao Deputado, por exemplo, condições de reforma extremamente aliciantes.
Terá sido isto que aconteceu no caso dos Professores? Terá quem para isso tem poderes, considerando as condições, que lhe pareceram duras, do trabalho dos Professores, lhes terá oferecido, como compensação, a não aplicação da regra geral ao seu caso? Porque se assim foi, o caso muda de figura. O que seria apenas a aplicação, aos Professores, de uma norma geral, passaria a ser o rompimento intolerável de um contrato.
Ora é isto mesmo que dizem os Professores. E dizem mais do que isso. Dizem que a Lurdinhas, além de ter assumido este compromisso, foi mesmo à Assembleia da República dizer que não haveria quadro de mobilidade especial para os Professores. O Bengalão, que, como já disse, não faz suas as reivindicações sectoriais de uma classe profissional a que não pertence, tem, sobre este comportamento de quem eu seu nome age, o direito de ter uma opinião. E O Bengalão procurou, assim, saber se era verdade aquilo de que era acusada a Lurdinhas.
É verdade que mentir aos Sindicatos e mentir à Assembleia da República não é exactamente a mesma coisa. No primeiro caso, a empregada d'O Bengalão, em nome d'O Bengalão, teria enganado alguém com quem, em representação d'O Bengalão, negociava. No segundo, teria mentido ao seu próprio patrão, porque as perguntas que O Bengalão faz aos seus servidores (é o que quer dizer ministro), as faz através da Assembleia da República. O Bengalão envergonha-se se os seus empregados não forem pessoas de bem. E, se mentem àqueles com quem negoceiam, não são pessoas de bem. O Bengalão não admite que os seus criados lhe mintam. E espera dos seus procuradores, na AR, façam o que se lhes exige, se a mentira se confirmar.
A Lurdinhas, entretanto, explicou-se. Disse a ilustre almofalense a seguinte enormidade: que, quando disse que não haveria quadro de mobilidade para Professores, estava apenas a referir-se a quem exercia funções docentes. Quer dizer, para a Lurdinhas, Professor não é uma profissão, é uma função. Ou seja, que, durante o tempo em que não dava aulas, um Professor deixava de o ser. E, quando disse que não haveria QM para Professores, estava a dizer o seguinte: se, por hipótese académica, fosse criado um QM para Professores, os Professores (ou seja, os que estão a dar aulas) não iriam para lá, porque, estando a dar aulas, não se lhes aplicaria a mobilidade. Quem fosse para lá, não estaria a dar aulas, e portanto, não seria Professor. Com esta definição, a Lurdinhas mostrou que, para além daquilo que já todos tínhamos visto, está ao nível daquilo a que, na longínqua juventude d'O Bengalão, se chamava um pantomineiro: um vendedor de banha da cobra com uma língua mais virtuosa do que o produto que vendia.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Jamé

O Bengalão ouviu o Ministro Jamé garantir que a decisão sobre o traçado da via de alta velocidade já tinha sido tomada. Ora O Bengalão não deu fé de que a CIP tenha publicado o seu relatório. O Bengalão anda cada vez mais distraído. E por isso te pede humildemente desculpa, Leitor.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Casamento e Impostos

O Bengalão leu no Público. Não foi um sonho, nem foi um filme do Gato Fedorento no You Tube. O Bengalão leu no Público. Estava lá preto no branco. O fisco anda a enviar cartas ameaçadoras a contribuintes recém casados a fazer perguntas indiscretas. Quantos convidados, quanto custou o vestido de noiva, quanto custou o almoço, se calhar que prendas deu cada um e onde as comprou. E ainda se houve outros eventos no mesmo dia no mesmo local. O Bengalão aproveita para chamar a atenção das suas amigas feministas para o facto de o fisco estar muito interessado no preço do vestido da noiva, mas ignorar por completo o preço do smoking do noivo. O machismo revela-se nos actos mais banais. A eles, companheiras!
O Bengalão leu e ouviu muitos comentários indignados a esta carta do fisco. Que o segredo, que a intimidade, que qualquer dia vai a ASAE verificar se os noivos, no quarto, findo o banquete, fizeram o que tinham a fazer nas regras da arte.
Ora O Bengalão pensa que estes comentadores dão, todos eles, provas de enorme ingenuidade. O Bengalão explica. Perguntar a alguém que prenda uma pessoa lhe deu, onde foi comprada e quanto custou, ou perguntar aos noivos quanto custou e como foi pago um banquete que a boa tradição portuguesa manda que os pais paguem, e não os noivos, perguntar a uma noiva quanto custou o vestido que a tornou na mulher mais bonita do mundo, só pode resultar ou de uma ignorância e insensibilidade descomunais, mesmo para os altíssimos parâmetros do fisco, ou de um objectivo bem definido e oculto. Perguntar a uns noivos se houve, no mesmo dia e no mesmo local outros eventos, como se os noivos estivessem para pensar noutros eventos no dia em que se casam, só se compreende ou de alguém extremamente estúpido, ou de alguém com um objectivo oculto e bem definido.
O Bengalão, este cínico coriáceo, sabe que, de duas explicações aparentemente possíveis, a mais provável é a mais simples. Pensa, assim, que a explicação mais provável é que, por detrás desta carta do fisco esteja, portanto, um objectivo oculto e bem definido. Ninguém acredita que um responsável, mesmo licenciado pela Universidade Independente, resolva fazer estas perguntas e estas ameaças para obter informações. O objectivo das cartinhas deve ser, portanto, outro.
Mas qual pode ser o objectivo do fisco, ao enviar estas cartas, se não é o da obtenção de informações? Para responder a esta pergunta, O Bengalão aconselha a bem conhecida estratégia do Alho Porro, inventada pela conhecida Agatha Christie. Interroguemo-nos, assim: cui bonus? Ou seja, quem tem a ganhar com isto?
Parece evidente que esta carta levará à ridicularização do fisco, à sua desacreditação. Pois que outra consequência pode ter uma manobra aparentemente tão inábil, tão estulta, tão brutal?
Portanto, cui bonus? A quem aproveita esta ridicularização e esta desacreditação? A resposta só pode ser uma: a quem, de forma sistemática e premeditada, foge ao fisco. A organizações criminosas, pois.
Segue-se a conclusão. O Bengalão suspeita que o fisco, sabe-se lá a que nível, tenha sido infiltrado por alguma tenebrosa organização criminosa com um plano maquiavélico: destruir, quem sabe se para sempre, a credibilidade da Fazenda, para melhor poderem continuar as suas práticas.
À atenção do Senhor Ministro das Finanças.

A Inocência dos Talibans

Acalma-te, Leitor. Quando O Bengalão deixa entrever que considera os Talibans inocentes, não afirma com isso que ache que eles sejam inóxios, palavra que, como tu bem sabes, significa probos, sem culpa. Não. Nem O Bengalão se acha capaz de determinar a culpa de seja quem for, mesmo de Talibans. O que O Bengalão quer dizer é que eles são ingénuos, ignaros, que são outros sentidos da palavra inocentes. Todos os Talibans são ingénuos. Acreditam que conhecem a verdade. E que a verdade (eles dizem a Verdade) é fácil de adquirir. Basta ouvir o discurso certo, ler o livro indicado, andar na escola correcta. E, desde já to digo, Leitor, que os Talibans não são só muçulmanos. Não. Em todas as religiões há Talibans. Mais. Os Talibans estão longe de se manifestar apenas na vida religiosa. Em todos os sectores da actividade humana há Talibans. Nunca ouviste, Leitor, um economista dizer, contra toda a evidência, que o Mercado resolve todos os problemas?
A Educação em Portugal é dominada, desde há muitos anos, por Talibans. A coisa passou-se assim: Como em todos os sectores, sempre houve na Educação pessoas que não gostavam do que faziam, que não tinham paciência para os alunos, que eram professores porque era o emprego que tinham mais à mão, ou apenas porque sim. Muitas destas pessoas estavam longe de ser estúpidas e perceberam que, movendo os cordelinhos certos, poderiam passar umas temporadas deslocados nos serviços centrais do Ministério da Educação, o que lhes evitava a maçada de terem de dar aulas. Algumas destas pessoas eram ainda menos estúpidas do que as outras e perceberam que, se se tornassem indispensáveis enquanto lá estivessem, podiam lá ficar. Para sempre. Sem terem de aturar alunos. A darem ordens, em vez de as receberem.
E inventaram uma linguagem própria, que só eles dominavam e compreendiam. E enredaram todo o Ministério numa teia que impedia qualquer movimento que não fosse o seu. E, como todos os Talibans, resumiram a sua verdade em Dois Princípios Imutáveis:
Primeiro Princípio Imutável: NÃO HÁ RAPAZES MAUS
Segundo Princípio Imutável: Como dizia um escritor americano que O Bengalão, na sua juventude, lia com frequência, COM OS RECURSOS ADEQUADOS E COM O TEMPO NECESSÁRIO, É POSSÍVEL ENSINAR CÁLCULO DIFERENCIAL A UM CAVALO.
A Lurdinhas, a Taliban de Almofala, é um exemplo acabado deste fundamentalismo. A Senhora tem certezas. A Senhora sabe a Verdade. A Senhora sabe de quem é a culpa. E lançou uma fatwa sobre os Professores.
Nas cabeças destes iluminados, como não há rapazes maus e toda a gente é capaz de aprender tudo, a culpa da indisciplina na Escola e do insucesso dos alunos só pode ser dos Professores. Acham eles que os meninos podem ser ensinados sem terem de fazer esforço nenhum, que tudo numa sala de aula se pode resumir a uma eterna sessão de brincadeira. Defendem também que os processos mentais que fazem de um ser humano um ser humano esclarecido e capaz são de categorias hierarquicamente diferentes, em que o que eles chamam raciocínio é a zona nobre e o que eles chamam memória a zona brutal que devemos evitar a todo o custo desenvolver.
Nenhuma destas posições tem o mínimo fundamento teórico ou pragmático. São uma questão de fé.
A realidade, no entanto, não se compadece com crenças fantasistas. E, se a frase do Padre Américo exprimiu a generosidade e o amor de um homem bom, a mesma frase, na boca de uma Ministra da Educação, não revela nem generosidade nem amor. Revela apenas incompetência. Porque o mínimo que se exige a um ministro é que reconheça a realidade. E ele há rapazes maus.
Há mesmo rapazes maus que são perigosos. Não, Leitor. O Bengalão não se refere aos rapazes que levam as suas naifas para a Escola. Refere-se a outros, também eles individualmente perigosos e colectivamente catastróficos. Trata-se daqueles rapazes, e raparigas, filhos daqueles senhores que O Bengalão tem por vezes encontrado por aí, que se julgam endinheirados e que, depois de passarem uma semana numa praia para turistas no litoral brasileiro, com manhãs de praia, tardes de cerveja e noites de forró, dizem aos amigos: este ano vamos para Cabo Verde. O Brasil já conheço. Cada mulata, pá! Ih, Jasus!
Estes rapazes são perigosos porque são educados pelos paizinhos, que são umas bestas. A única maneira de os domar é dar poder às Escolas e autoridade aos Professores. E a Lurdinhas diminui um e outra. Ao impedir as Escolas de tomar medidas disciplinares, ao ter um discurso de humilhação permanente para os Professores, que são por ela tratados como se fossem um bando de ignorantes preguiçosos, a Lurdinhas é responsável por uma calamidade que, se não foi criada por ela, foi por ela agravada. E recordemos que a Lurdinhas quer que os Professores sejam avaliados por estas barrigas bronzeadas.
O Bengalão está longe de pensar que todos os Professores são competentes e dedicados. Não são. E uma parte da responsabilidade disso é de quem decidiu que podia haver praticamente uma Universidade em cada aldeia de Portugal. De quem permite que um cidadão possa passar para o 10º ano com negativa a matemática, fazer os três últimos anos do secundário sem essa disciplina, entrar em certas Escolas Superiores de Educação, ter um semestre de matemática nos quatro anos de estudo e, depois, dar aulas, entre outras coisas, de matemática. Ou seja, do Ministério da Educação.
É por isso que O Bengalão pensa que a Lurdinhas, a Taliban de Almofala, é inocente como todos os Talibans. O que está longe de a tornar menos culpada.