sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Elogio de Sócrates

O Bengalão, além de ser Homem de Palavra, é um homem de palavras. E segue, sempre muito atento, as palavras do Ingenhêro, não para tentar perceber o que ele diz, que é, as mais das vezes, irrelevante, mas sempre à escuta do que ele não diz. O Leitor já terá reparado que a modéstia é uma das qualidades que doura o Bengalão. É por isso que o Bengalão não ousa repetir o que um dos seus comentadores disse há alguns posts, quando afirmou que o Bengalão era fino como um alho. É verdade que só a modéstia impede o Bengalão de o repetir. E o Leitor está mesmo a ver daí o Bengalão, naquela posição de mãos postas sobre o peito e olhos semicerrados, como o Papa, quando diz, na sua modéstia beata, "Eu não valho nada. Eu sou apenas o representante de Deus na terra". Não repetirá assim o Bengalão que é fino como um alho. Está então o Bengalão à escuta do que o Ingenhêro não diz. É um exercício muito instrutivo, que o Bengalão aconselha vivamente ao Leitor. Queres um exemplo, Leitor?
Pois bem. Há alguns dias, publicou um jornal uma notícia segundo a qual o Ingenhêro teria, há alguns anos, quando era funcionário da Câmara da Covilhã, assinado alguns projectos a apresentar na Câmara da Guarda, dos quais não seria o autor. O autor seria um funcionário da Câmara da Guarda, impedido como tal de lá apresentar projectos, suprindo essa proibição com o recurso à assinatura do Ingenhêro. A notícia é omissa sobre se o mesmo se passava no sentido inverso, quer dizer, se o Engenheiro da Guarda assinaria projectos da autoria do Ingenhêro da Covilhã, para este os apresentar nesta Câmara.
O Bengalão não faz a mínima ideia se isto é verdade. O Bengalão sabe que este tipo de práticas era corrente, principalmente em Concelhos do Interior, onde não abundavam os técnicos liberais e os projectos se faziam com muita fé em Deus e a ajuda de um desenhador. Mas não sabe se o Ingenhêro fez aquilo de que é acusado. Não toma por isso posição. Quantas mentiras não viu já o Bengalão escritas em jornais? Esta pode ser apenas mais uma, porque não?
O que é interessante para o Bengalão são as respostas que o Ingenhêro dá quando alguém o interroga sobre o assunto. Um jornalista, ou um deputado, pergunta-lhe: É verdade, Ingenhêro? Assinou projectos dos quais não era autor, o que é, objectivamente, um crime de falsificação e uma irresponsabilidade total, que provariam à saciedade que não tem as qualidades éticas para exercer o alto cargo que ocupa? (É claro que a pergunta é mais curta, para não dar a possibilidade ao Ingenhêro de se refugiar no matagal das ofensas imerecidas, mas o que quer dizer é isto.) A resposta do Ingenhero é um modelo de precisão de linguagem. Com esta formulação ou com outra, o que o Ingenhêro diz sempre é o seguinte: "Nunca assinei nenhum projecto pelo qual não fosse responsável".
Ora a verdade é que um técnico nunca é responsável por um projecto que não assinou e é sempre responsável por projecto por si assinado. Neste quadro, assinar é um sinónimo de ser responsável. O que o Ingenhêro diz, portanto quando lhe perguntam se assinou projectos que não elaborou, é o seguinte: Nunca assinei projectos que não tenha assinado. É por isso que o Bengalão se interessa muito mais por aquilo que o Ingenhêro não diz. E ele não diz que a acusação é falsa. Mas é verdade que utiliza as palavras com uma precisão que o Bengalão não pode deixar de admirar.

2 comentários:

José Luiz Sarmento disse...

"Nunca assinei nenhum projecto pelo qual não fosse responsável".

Também a mim já me tinha ocorrido o quão admirável é esta frase - mais própria de um engenheiro mecânico, que mede as tolerâncias em mícrons, do que de um engenheiro civil, que as mede em centímetros.

Isabel Magalhães disse...

Brilhante, o artigo do Bengalão! :)))