quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Mined

Estava o Bengalão a pensar que alguns dos seus amigos, aqueles que conhecem a sua paixão pela Educação e pela Escola Pública, hão-de estranhar nunca ter o Bengalão referido nem uma nem outra. Então o Bengalão, que de tudo fala, não diz uma palavra sobre a Escola?
O Bengalão deve confessar que o seu silêncio se deve, sobretudo, ao imenso respeito que nutre pela Senhora Minstra da Educação. Calma, Leitor. O Bengalão julgava que já te tinha convencido da virtude da paciência. O Bengalão, sensível como todos os humanos à lisonja, que neste caso é a atenção do seu Leitor, usa de manhas, de subterfúgios, para lhe prender os olhos ao ecran. E, tendo visto a sua dosezinha de filmes de Hollywood, tendo presente o seu Camilo, recordando-se ainda da sua Eneida, vai tentando, o melhor que pode e sabe, ferrar o seu peixe, que, neste caso, és tu, Leitor, e trazê-lo à borda da água, ou seja, ao fim do texto. Para isso, há que engodar com generosidade, iscar com finura, ter o pulso lesto e a mãozinha leve. E queres, Leitor, melhor engodo do que este, o imenso respeito do Bengalão pela Senhora Ministra da Educação? Portanto, caríssimo Leitor, calma e paciência, que, se são ínvios os caminhos do Senhor, os caminhos do Bengalão são, no mínimo, tortuosos.
A razão deste silêncio, não foi sempre, no entanto, absolutamente clara, nem mesmo para o próprio Bengalão. Quantas vezes, à noite, ao procurar a reparação da "morte pequenina", o Bengalão não se interrogou, por vezes com alguma aspereza: Então tu calas-te? Então tu não dizes nada? Então tu falas de tudo, ele é o Ângelo, ele é o Paulinho, ele é o Ingenhêro e, dela, nada? O Bengalão chegou mesmo a pensar consultar a Astróloga Maya, que é um dos serviços públicos mais mimosos que nos presta a televisão que todos pagamos. Não, Leitor, o Bengalão não se refere só à televisão pública, mas também à outra. Também somos nós que a pagamos. E nem é precisa a taxa.
Estava então o Bengalão a dizer que pensou até em consultar a Astróloga Maya. Mas a lista de espera era imensa, como é normal num serviço público deste país onde floresce a abóbora e o Marcelo pensa e a consulta era empurrada lá para Julho do ano que vem, o que era claramente tarde. Arriscava-se o Bengalão a estar a falar de uma Senhora que já não era Ministra de um Governo que já o não era. E o Bengalão não gosta de malhar em ferro frio.
O Bengalão decidiu então reflectir. E procurar, no fundo de si próprio, as razões de tão gritante silêncio. Para perceberes as conclusões a que chegou o Bengalão, tens de o acompanhar, Leitor, nesta viagem.
O Bengalão sempre teve uma ternura muito particular pela greve de zelo. A ideia da greve é forte, é corajosa, é decididamente masculina. Mas a greve de zelo, toda rendada, toda irónica, toda feminina, é incomparavelmente superior. (Já reparaste, Leitor, no ilogismo desta expressão que, no entanto, usamos, com variantes múltiplas, todos os dias? Só podemos saber que uma coisa é superior a outra se as compararmos. Ora, se as compararmos, elas podem ser tudo menos incomparáveis. Não há, assim, nada que possa ser incomparavelmente superior a seja o que fôr). Mas, sendo as coisas o que são, como dizia o Bonifácio (Ai, o Bonifácio dava um livro...), a greve de zelo sempre pareceu ao Bengalão incomparavelmente superior à greve tout court. Para avivar a tua memória, querido Leitor, uma greve de zelo consiste em cumprir, na íntegra e sem contemplações, todas, mas todas as regras, leis, normas e ordens que emanam da autoridade que enquadra o trabalhador. Para acreditar na potencialidade da greve de zelo, é precisa uma fé cega e total na capacidade da autoridade (de toda a autoridade) para criar regras inúteis e perniciosas. Está-lhe na massa do sangue. É a vida, como diria um Alto Comissário que todos conhecemos bem. O Bengalão tem essa fé. E deve confessar que fez algumas greves de zelo. Algumas sozinho. E, se o resultado nem sempre foi brilhante, pelo menos o Bengalão divertiu-se.
O Bengalão imagina o que vai pela cabeça do seu Leitor fiel. O que terá a greve de zelo, ou a vida do Bengalão, a ver com a Senhora Ministra da Educação? Mais um pouco, Leitor, e verás, uma vez mais, a lógica implacável do Bengalão.
O Governo do Ingenhêro não prima pela originalidade. É difícil, se virmos as ideias que sairam daquelas cabeças brilhantes, descortinarmos alguma que seja nova. O Bengalão avisa desde já que isto não é uma crítica. O Bengalão admite que, por vezes, a novidade não só não é sinónimo de qualidade, como pode trazer consequências graves e perniciosas. O Bengalão limita-se a constatar um facto. Para ser mais plástico, em jeito de exemplo, o Bengalão diria que este Governo ficará na História, como todos os Governos. Mas, daqui a uns séculos, quando os historiadores procurarem, de entre o número imenso dos Governos que, nessa altura, terão governado o país, para determinarem quais, pelas suas medidas originais, se distinguiram dos demais, dificilmente citarão o Governo do Ingenhêro. Não, Leitor, quando o bisneto do bisneto do Professor Hermano Saraiva, de braços no ar como quem dança a chula e com os olhos revirados para cima, entrar em casa dos bisnetos dos nossos bisnetos, pela televisão, para anunciar, de dez em dez minutos, o que vai tratar no seu próximo programa, não será do Ingenhêro que falará.
Assim sendo, uma Ministra que mostre um fumo de originalidade, nem que seja por ir de mini-saia e meias pretas para o Conselho de Ministros, merece o nosso respeito. Note-se que o Bengalão não tem notícia de que alguma Ministra, ou algum Ministro, aliás, tenha alguma vez ido a Conselho de mini-saia e meias pretas. Era apenas uma imagem, se bem que com possibilidades a explorar.
A Senhora Ministra da Educação, desde que começou a governar, tem-se distinguido pela quantidade de papeis que obriga os Professores a preencher. A Senhora Ministra da Educação põe em perigo a floresta da Amazónia, tantas são as árvores que será preciso abater para produzir as grelhas, os formulários, os planos, os planitos, as fichas, as cadernetas, os livros de actas, os livros de ponto, os testes formativos, os testes de avaliação, as nótulas, os relatórios, os recursos, as justificações que os Professores terão de conceber, produzir,apresentar à consideração superior de quem Sua Excelência mande. A Senhora Ministra da Educação tem obrigado os Professores a receber os pais a todo o momento, a fazerem reuniões de Conselhos, Assembleias, Comissões, Comités, Clubes e outras invenções da burrocracia. A Senhora Ministra tem obrigado os Professores a estarem nas Escolas sem fazerem nada (porque lhes não dá condições para fazerem seja o que fôr). De modo que pouco tempo resta aos Professores para fazerem aquilo para que lhes pagamos: ensinarem.
E nesta altura, pergunta o Leitor: Sim, e depois? O que tem isto a ver com tudo o resto? Com a originalidade, com a greve de zelo? Pois não vês, Leitor? Diz Zoroastro (não é todos os dias que se escrevem dois ZZ seguidos) que o mundo foi criado dual: para cada roca, seu fuso. No mundo laboral, este equilíbrio reflexo também se aplica: à greve opõe-se o lock out, grande pavor social no tempo em que havia empregos, como os mais velhos se lembrarão. A Senhora Ministra, num golpe de génio, inventou o que ninguém tinha ousado inventar: o lock out de zelo. É simples e elegante: atulham-se os Professores de papeis e trabalho administrativo, burocrático e de cosmética estatística. Assim se impede que eles ensinem.
Senhora Ministra da Educação, permita-me, em memória do Colégio da Cerdeira (isto do Colégio da Cerdeira é aquilo a que o Ingenhêro, se soubesse Inglês, chamaria uma private joke), que a trate por Lurdinhas. Lurdinhas, os meus respeitos.

4 comentários:

Anónimo disse...

Este homem é um génio.
Parabéns.

Maria João Teles disse...

Está brilhante!

alentejanaprofunda disse...

Esta do colégio da cerdeira é mesmo uma private joke!!! Muito private e também minha! Olá AMIGO,gosto muito de te "rever" e reler!Pois aqui estão os nossos clássicos...o nosso Garrett, o meu Camilo...Adorei o texto!

Paideia disse...

Está giro. Sei o que é uma private joke, só não sei o que é o colégio da cerdeira, por isso não percebi a private joke...
;)